O dever de agir em 2021

 A epidemia provocada pela Covid-19 deverá constituir em 2021 um decisivo factor da pior recessão em 30 anos nas 47 nações menos desenvolvidas do planeta e poderá levar à pobreza extrema até 32 milhões de pessoas, diz um recente relatório da ONU.


Se em 2020 o mundo entrou num pandemónio económico e social, em 2021, o mundo corre o risco de ficar mais pobre e serão as parcelas mais carentes da sociedade as mais afectadas pelos agravamentos e pelas consequências económicas da epidemia.

Se 2020 foi o ano da pandemia, 2021 será o momento de viver a maior extensão e dimensão de seu impacto social. De acordo com a ONU, há um risco real de que a vacina contra a Covid-19 chegue apenas para uma parcela rica do planeta e que milhões de pessoas ainda tenham de esperar meses ou anos para serem imunizados.

Vacina para os mais ricos, os mais pobres esperam! Na sua coluna regular no diário El País, o jornalista e cientista Javier Sampedro titulava nas últimas semanas: “O mundo rico vai vacinar-se em 2021; os países em desenvolvimento terão que esperar dois anos mais”. Na verdade, face à epidemia nem estamos todos no mesmo barco, nem as bóias de salvação que venham a ser lançadas no mar agitado da crise são para todos.

A lógica adoptada pelos países mais desenvolvidos de fazer contratos de aquisição da vacina contra a Covid-19 com pagamento garantido, conjugado com as dificuldades de responder a toda a procura, estão a levar a que as necessidades de programas de vacinas como os da ONU, que acodem sobretudo a países em desenvolvimento, sejam deixadas para o fim da fila.

Enquanto isso, a crise humanitária deverá conhecer aprofundamentos e atingir um número recorde de 235 milhões de pessoas. Os dados apontam que o número de pessoas afectadas por crises humanitárias será 40% superior aos dados de 2020. O total é quase três vezes maior que em 2015...

"Se todos aqueles que precisarem de ajuda humanitária no próximo ano vivessem num país, seria a quinta maior nação do mundo, com uma população de 235 milhões de habitantes", diz a ONU.


"Temos uma escolha clara diante de nós. Podemos deixar que 2021 seja o ano em que 40 anos de progressos sociais serão desfeitos— ou podemos trabalhar em conjunto para garantir que todos encontraremos uma saída para esta pandemia", disse o chefe humanitário da ONU, Mark Lowcock. Se a situação internacional já não era das mais fáceis, a pandemia da Covid-19 ampliou a crise de maneira inédita.  Para ONU, 2021 "irá sem dúvida exigir uma concentração ainda maior de esforços de resposta humanitária adaptáveis, dados os efeitos a longo prazo da pandemia sobre as várias crises no mundo”.

Mas, ano de 2021 não será o pior dos tempos e nem o melhor dos tempos, como diria Charles Dickens. Em dias difíceis, assim escreveu aquele escritor britânico: «Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos, foi a idade da sabedoria, foi a idade da tolice, foi a época da fé, foi a época da incredulidade, foi a estação da luz, foi a estação das trevas, foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero, tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós».

É num quadro objectivamente adverso que se avizinha 2021 e que se coloca a necessidade de enfrentar a crise económica e social, agravada pela epidemia gerada pela Covid-19, e que está a contribuir para o aumento da pobreza e das desigualdades na população. Tornam-se, pois, urgentes medidas audaciosas e exigentes em soluções locais e globais, alternativas credíveis e efectivas. Este é o tempo de continuarmos a tarefa de construir um mundo mais feliz, justo, de justiça social.

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