Corsas, Corsões, Carros de Bois e Carros de Cesto

De uma maneira muito genérica as corsas, os corsões, os carros de bois e os carros de cesto são trenós adaptados para distintas funções.

Considerados pela história regional como transportes típicos associados à evolução da sociedade após a colonização da ilha, sendo o "carro de cesto" o único sobrevivente, no activo ainda que sob a forma de atracção turística.

Corsa transportando pipa de vinho Madeira - pintura de Max Römer

As referências históricas mais antigas mencionam o uso de trenós construídos com madeira cerca de 8.000 anos antes de Cristo, na Suméria (Mesopotâmia) e Egipto. Estes trenós usados principalmente para a deslocação de cargas, podiam ser puxados por animais (bois ou cavalos) e também por força humana.

Nos territórios a norte da Europa, e principalmente devido às austeras condições meteorológicas no Inverno, que deixavam tudo coberto de gelo e neve, o trenó afigurava-se como o transporte mais eficaz.


A colonização do arquipélago após a sua descoberta oficial em 1418 (Porto Santo) e 1419 (Madeira), sofreu claramente influência dos usos e costumes das zonas de onde eram oriundos os novos colonos.

A orografia acentuada da ilha da Madeira constituiu um desafio adicional para os meios de transporte terrestres dos primeiros tempos.

A partir do momento em que as veredas e caminhos foram pavimentados com pedra, mais especificamente com calhau rolado, tornou-se óbvia a vantagem da utilização de transportes de arrasto.

As ideias trazidas do estrangeiro foram convertidas na região, adaptando-se às características do terreno e aos materiais disponíveis.

Corsa na zona leste do Funchal no início do Século XX (foto Museu Vicentes)

Observando cada um destes meios de transporte:

Corsa - Veículo de arrasto, de forma rudimentar, puxado por uma parelha de bois, usado na ilha da Madeira e destinado somente ao transporte de carga. Compõe-se simplesmente de uma prancha de madeira com cerca de 2 metros de comprimento e 40 cm de largura, tendo na extremidade anterior uma abertura para a passagem de uma correia que a liga à lança (também conhecida localmente por "solas"). A prancha era quase sempre de madeira de til e algumas vezes de nespreira ou amoreira. A lança ou solas era feita de pinheiro e a canga e os canzis de nespreira ou til. Os bordos da superfície superior da prancha possuíam uma tiras de madeira, enquanto a parte inferior que arrasta, era por vezes forrada com chapas de ferro.

Curiosamente nas ilhas Canárias também existe este tipo de transporte e com a mesma designação, fruto da partilha de costumes entre os povos dos dois arquipélagos.

Corsa transportando cana sacarina (antigo postal ilustrado)

Corsão - Corsa de grandes dimensões que permitia o transporte de cargas mais volumosas. De construção mais robusta, possuía um estrado com tábuas ou grelha de madeira. Os corsões eram usados por exemplo para o transporte de mobílias e de grandes caixas de madeira com os produtos desembarcados no porto.

Carro de Bois - pintura de Max Römer

Carro de bois - apenas no nome, pois pertence à categoria de veículos de arrasto. Deverá ter como origem a modificação da corsa, com adaptação de uma caixa com bancos, de modo a que servisse para o transporte de passageiros. 

A caixa com bancos duplos colocados frente a frente, dotada de portinholas laterais, coberta por toldo e suspensa em molas, deve ter sido uma inovação introduzida entre as décadas de 30 e 40 do Século XIX.

No seu conjunto tem aspecto de trenó para transporte de passageiros, puxado por uma junta de bois.

Sendo a Madeira uma estância turística bastante visitada, o "carro de bois" ou "carro chião" (como também era conhecido devido ao barulho produzido enquanto se movimentava), popularizou-se internacionalmente ao longo do Século XIX.

Carro de Bois na década de 70 do Século XX, nas proximidades do Parque de Santa Catarina
(antigo postal ilustrado)

Este meio de transporte, embora com procura turística, não resistiu às necessidades de higienização da cidade do Funchal, incompatíveis com a circulação de bovídeos nas principias artérias da baixa citadina, foi extinto nos inícios da década de 80 do Século XX.

"Carros de Cesto" de dois e de três lugares (fotos Museu Vicentes)

Carro de Cesto ou Carro do Monte - também da categoria dos veículos de arrasto, teve a sua origem nos finais da década de 40 do séc. XIX, com a adaptação de uma corsa para transporte de passageiros, dotada de um banco para duas ou três pessoas numa estrutura de vime.

Dois homens (Carreiros - trajados de branco e chapéu de palha, com perícia, utilizam as próprias botas, com grossas solas de borracha, como travões.) estavam encarregues da sua condução nas inclinadas descidas do Monte até à baixa do Funchal.

A necessidade de pessoal altamente habilitado para a condução em segurança de uma leve estrutura como esta levou à constituição de uma associação, os Carreiros do Monte, que funcionaria como tal a partir de 1850.

Os carros de cesto do Monte gozaram de imediato de uma enorme popularidade face à vertiginosa descida a partir daquela freguesia em poucos minutos.

O trajecto original de 2,7 km terminava na Rua do Pombal, ao passo que actualmente, reduzido a 1,3 km e demorando cerca de 5 minutos, termina no cruzamento da Rua de Santa Luzia com a Estrada do Livramento.

Carro de Cesto na actualidade como transporte típico para turistas (foto: Sónia Dória)

* Referências: Elucidário Madeirense e site Aprender Madeira
* Textos escritos conforme Acordo Ortográfico de 1945 
Eugénio Santos - Novembro 2018
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