Transportes na Madeira - O Século da Revolução do Vapor


O Século XIX ficaria marcado na história, como o "século da revolução do vapor". A Revolução Industrial que teve a sua génese na Grã Bretanha por volta de 1760,  expandiu-se gradualmente pela Europa até chegar aos Estados Unidos ao longo do Séc. XIX.

Esta transformação incluiu a transição de métodos de produção artesanais para a produção por máquinas, a fabricação de novos produtos químicos, novos processos de produção de ferro, maior eficiência da energia da água, o uso crescente da energia a vapor e o desenvolvimento das máquinas-ferramentas, além da substituição da madeira e de outros biocombustíveis pelo carvão.

A primeira máquina a vapor que há registo foi a "Eolípila", também chamada de "bola de vento", criada por Heron de Alexandria no Século I. Mas foram precisos quase 16 séculos para que em 1698, Thomas Savery, engenheiro militar inglês, criasse um motor que foi utilizado em fábricas, dando assim um passo importante para a revolução industrial.

Em 1712, Thomas Newcomen, inventor inglês projectou uma nova máquina que poderia ser utilizada dentro de minas de carvão, a qual, apesar de mais lenta que as anteriores, podia tanto elevar água quanto cargas mais pesadas e tinha um custo de capital muito menor (uma vez que substituía os cavalos que eram usados no trabalho).

Diagrama da máquina a vapor inventada por James Watt

Todas estas máquinas foram importantes para a introdução do vapor na nossa sociedade. Em 1769, o francês Nicolas-Joseph Cugnot criou um veículo de 3 rodas, movido a vapor. No entanto, foi no ano de 1777 que o motor a vapor mais relevante da história foi criado. James Watt, fabricante de instrumentos londrino, aperfeiçoou o motor a vapor de Newcomen, após perceber uma falha no projecto da mesma, na qual um tempo muito grande era gasto por ter o aquecimento tanto do vapor quanto do combustível num mesmo cilindro criando assim um segundo cilindro.

 Diagrama da locomotiva a vapor inventada em 1803 por Richard Trevithick

A primeira locomotiva a vapor sobre carris, foi construída pelo engenheiro inglês Richard Trevithick e fez o seu primeiro percurso a 21 de Fevereiro de 1804. A locomotiva conseguiu puxar cinco vagões com dez toneladas de carga e setenta passageiros à velocidade de 8 km por hora usando para o efeito carris fabricados em ferro fundido. E assim nasceu o caminho de ferro, um dos mais importantes meios de transporte terrestre. A Madeira só veria um comboio pela primeira vez em 1885, aquando da construção da segunda fase do Porto do Funchal.

Nos transportes marítimos, desde 1783 que diversos inventores vinham fazendo diversas experiências com barcos equipados com motores a vapor, sempre em rios ou canais. Em 1813, Richard Wright construíu o primeiro barco a vapor, que navegou em mar aberto entre Leeds e Yarmouth.

Transatlântico "Great Western" de 1838

O primeiro navio a efectuar regularmente viagens transatlânticas foi o "Great Western", construído em 1838 por Isambard Kingdom Brunel. Este seria o pioneiro da era dos famosos transatlânticos.

O panorama do arquipélago da Madeira 

E eis que passados 400 anos em que o panorama dos transportes no arquipélago da Madeira pouco se alterou, em 1835 os ecos da Revolução Industrial, finalmente se fizeram sentir, com a chegada do primeiro navio a vapor à baía Funchal, chamado "Lorde das Ilhas".
De 14 a 22 de Maio de 1837 o Funchal volta a receber a visita do "Lorde das Ilhas" mas já com o novo nome de "Terceira".

Em 1839 foi constituída a Empresa Portuense de Navegação por Vapor.  Nesse ano partiram de Lisboa para o Funchal, os paquetes "Quinta do Vesúvio" a 5 de Abril e o "Porto" a 12 de Maio.

1853 - Paquete "Dona Maria II" (ilustração in "Paquetes Portugueses" - Luís Miguel Correia - 1992)

Em 1852 foi constituída a Companhia de Navegação Luso Brasileira. Um dos seus três paquetes, o "Dona Maria II" fez a viagem inaugural Lisboa - Rio de Janeiro, com partida a 7 de Junho de 1854 com escalas no Funchal, Cabo Verde e Pernambuco.

Paquetes "Atlântico" e  "Insulano"

Depois da criação da Empresa Insulana de Navegação em Dezembro de 1871, a Madeira passou a ter ligações regulares mensais com Lisboa e Açores, com recurso à utilização de navios a vapor. Os primeiros desta empresa a visitar o Funchal foram o "Atlântico" e o "Insulano".  
 
1881 - Paquete "Portugal" (ilustração in "Paquetes Portugueses" - Luís Miguel Correia - 1992) 

A Empresa Nacional de Navegação foi  criada em Dezembro de 1880 e viria a tornar-se num dos mais importantes armadores portugueses. Os paquetes "Portugal" e "Angola" foram os primeiros desta empresa a visitar o Funchal.
Sete anos depois em 1887 foi constituída em Lisboa a Empresa Africana de Navegação a Vapor e no ano seguinte a parceria Mala Real Portuguesa.
Para além dos navios a vapor de passageiros, os de carga e os militares, nacionais e estrangeiros, foram frequentadores dos mares da Madeira.

 1864 - Corveta "Duque de Palmela" (ilustração de Telmo Gomes)


 1876 - Cruzador "Vasco da Gama" (ilustração de Telmo Gomes)

1897 - Cruzador "São Gabriel" (ilustração de Telmo Gomes)

As duas últimas décadas do Séc. XIX fizeram com que a baía do Funchal ficasse cada vez mais frequentada pela navegação a vapor, quer nacional, quer internacional, a ponto de as infraestruturas portuárias serem insuficientes para tanta procura.
A muralha de 100 metros construída em 1757, ligando terra firme ao ilhéu de São José não era suficiente, pelo que a segunda fase de obras de ampliação do porto decorreu entre 1885 e 1889. Esta obra consistiu na construção de uma muralha de 150 metros, ligando o ilhéu de São José ao ilhéu de Nossa Senhora da Conceição, de modo a permitir a acostagem de navios de maior calado. Os trabalhos foram adjudicados aos engenheiros franceses Fréderic Combemale, Jules Michelon e Arthur Mury que lideravam uma empresa de construções portuárias.

 Uma das duas locomotivas usadas nas obras da segunda fase de ampliação do porto do Funchal entre 1885 e 1889 (foto: Photographia Museu Vicentes)

E foi neste período que o Funchal viu pela primeira vez um caminho de ferro, instalado entre a zona a sul do Palácio de São Lourenço e a zona das obras de construção das novas muralhas do porto de abrigo. Duas locomotivas a vapor e diversos vagões, transportavam quer os materiais de construção, quer o carvão necessário para alimentar a fornalha da gigantesca grua a vapor instalada na obra. Esta grua seria depois deslocada para a entrada do Funchal, entre 1889 e 1892 para a construção do novo "Cais da Cidade".

  Uma das composições (locomotiva+carruagem) do Caminho de Ferro do Monte na zona da Levada de Santa Luzia (foto: Photographia Museu Vicentes)

Os anos 90 do Séc. XIX ficariam marcados pela ferrovia. Primeiro a inauguração do Caminho de Ferro do Monte, uma via férrea de bitola métrica equipada com cremalheira, ligando o centro do Funchal à freguesia do Monte. O primeiro troço, entre o Pombal e a Levada de Santa Luzia foi inaugurado a 16 de Julho de 1893.

  Um dos "Carros Americanos" na Praça da Constituição preparando-se para partir com destino à estação do Pombal (foto: Photographia Museu Vicentes)

Em segundo lugar a inauguração a 3 de Junho de 1896, do Caminho de Ferro Americano entre a Praça da Constituição (actual largo da Restauração) e a estação do Pombal, ponto de partida do Comboio do Monte. Este transporte era composto por carros cobertos, de dois eixos, traccionados por três cavalos ou muares, circulando sobre via férrea de bitola de 60 cm, embebida no pavimento.
Os transportes ferroviários serão abordados mais ao detalhe em próximos capítulos.

Bibliografia:
GOMES, Telmo, (1995), Navios Portugueses - Séculos XV a XIX, Edições Inapa
PEREIRA, Eduardo C. N., (1989), Ilhas de Zargo, Volumes I e II, 4ª. Edição, Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 784 p. e 887 p.
SILVA, Padre Fernando Augusto da, e Carlos Azevedo Menezes, (1920), Elucidário Madeirense - Volumes I, II e III - 1ª. Edição
SUMARES, Jorge, Álvaro Vieira Simões e Iolanda Silva, (1983), Transportes na Madeira, Funchal, Direcção Regional dos Assuntos Culturais, 242 p.
Texto redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945
Eugénio Santos - Março 2019
    
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