A primeira exposição de desenho e pintura de Agostinho Santos na Região Autónoma da Madeira é da série “Homem Bicho”. Não falarei de Pintura, muito menos sobre Arte, direi da forma como me provoca o “Homem Bicho”. Naqueles seus trabalhos Agostinho Santos reporta-nos para a boçalidade. Em vez do sage, o boçal que se intromete em cada um de nós. Mais forte do que a sageza.
O
pintor observa-nos, intui-nos e traz-nos figuração de um pressentimento acerca
de cada um de nós, naquilo que em nós achamos feio, coisa feia, indigna.
O
“Homem Bicho” é diferente do monstro. Enquanto o “monstro” (outra das temáticas
e séries de Agostinho Santos) se colocará no campo do anómalo, da extraordinariedade,
já o “Bicho Homem” está normalizado no humano, é do nosso quotidiano mais
ordinário. É parte do que nós transportamos e somos. Do que cada pessoa experimenta.
Do que cada um esconde. As sombras que habitam nossas mãos. Os fragmentos, quiçá
universos preponderantes, de uma suposta nossa maior racionalidade. O
animalesco que mora em cada indivíduo, dissimulado por conveniência social,
ocultado para satisfazer uma qualquer moralidade, disfarçado para parecer bem,
remetido para horas recônditas.
O “Homem Bicho” é a loucura do mundo que há em nós. É a vontade individual, pessoal, de descaradamente, em certas horas, ou se calhar mais veladamente, parir atrocidades, maiores ou menores nas suas incidências ou envolvências, quase sempre procurando explicar e se necessário justificar tais procedimentos da nossa brutalidade. É a capacidade de insuflar a violência e o trágico e o caos. A bestialidade de provocar sofrimento, o poder de urdir o pesadelo, de provocar a morte. Sejamos cristãos, budistas, judeus ou islamitas, agnósticos ou ateus, para além da diversidade das representações do mundo e das nacionalidades, na cosmovisão de qualquer continente ou das particularidades culturais, temos em nós as criaturinhas a que Agostinho Santos dá forma e coloração.
Já sobre a Arte em Agostinho Santos,
socorro-me da palavra competente de Rui Laje: «escritores, académicos, artistas
plásticos, críticos e outros coincidiram na identificação de um conjunto de
traços distintivos na obra de Agostinho Santos, os quais, elencados sob a forma
de adjetivos, nos permitem qualificá-la como “visceral”, “múltipla”, imprevisível”,
“arriscada”, “vital”, “intuitiva”, “efusiva”, “versátil”, “irrestrita” ou “irreverente”.
Tivéssemos porém de recorrer a um só adjetivo no qual todos estes convergissem
semanticamente e o melhor candidato seria, assim o cremos, o adjetivo “atuante”.
A pintura de Agostinho Santos é uma pintura atuante. Por oposição a
contemplativa. E caracteriza-a, para além disso, uma certa desmesura – quer no
que toca à sua fecundidade, quer no que toca à sua expressividade».
O “Homem Bicho” é a oportunidade para cada pessoa se deixar confrontar na proximidade dos trabalhos trazidos a esta ilha, que estão patentes na Galeria Anjos Teixeira, à rua João de Deus nº 12, no Funchal, até 14 de novembro de 2020.
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