Maldita Cocaína

Não é alusão directa à Madeira mas lá ... chegamos à Madeira ou quê?

Filipe la Féria no início dos anos 90 retratou os anos 20 da Lisboa do século XX, polvilhando a realidade dos lugares castiços, dolosos e aldrabões com a ficção através de um naipe soberbo de actores, em início de carreira, e que hoje em dia são referências nacionais.

Se por um lado se retratava Alves dos Reis, a Política, os Camisas Negras, os garçonnes, o repórter X, com laivos de Fernando Pessoa, por outro lançava réis e rainhas da sátira e consagrava referências do teatro em peça acessível ao povão.

La féria é como o André Rieu, traz a democracia à cultura pura e dura, usam um porta enxertos que é o público e enfiam estacas de cultura, quanto baste, para que frutifique.

A Maldita Cocaína foi o início de muito, de trazer mais público aos teatros, de dar rendimento aos artistas, de satirizar os tempos mas de sobretudo revitalizar o teatro, a arte e o espaço, neste caso o Politeama.

Se La Féria conhecesse bem a Madeira, fora dos "arrastar de asa" e da viabilidade financeira, teria inspiração para um musical soberbo, sobre os que nos dão música, do dolo, dos fingidos, dos que não se dão com ninguém, importantes isolados, dos que pregam como Alves dos Reis e não passam de falsificadores de notas nos jornais, de contas do vigário na região e, pois claro, do numerário, que não existe para sustentar o "teatro". Uma peça aparentemente pura, regrada pela teia de interesses.

Filipe La Féria teria aqui, durante o casting, toneladas de actores supostamente bons, de fila a dar a volta ao quarteirão para as audições. Cada um precavido de como decorrem os testes, finamente recortados para o momento mas que, depois de escolhidos, são uns flops na interpretação da vida real e no improviso. O teatro tem destas coisas, se vais bem ensaiado enganas todos, até dizes o que os outros gostam de ouvir, passas por grande actor mas como pessoa logo vemos.

Tenho, para mim e meus botões, de que toda a realidade é ficção de gente fraca que, na hora da verdade, não vale nada. Estamos no parecer, a bilheteira vai-se encher, e na ficção anda tudo feliz, até ao dia em que for preciso que cada um dê do seu para reabilitar o teatro, o fisco venha cobrar como entender com o reí na barriga, o banco pergunte pela liquidação da dívida e se descubra que, afinal, a contabilidade de sucesso foi feita por engenheiros. Todos os bons actores, serão então e na vida real, erros de casting. Já vimos este ... teatro.

A primeira situação, de tão só surgir, detectada pela Gnose, é de como na hora da verdade os bons do teatro esfumam-se, precavendo-se e resguardando a burla teatral que garante o rendimento. Esses sempre próximos para controlo mas longe de qualquer abono que finde a ficção. Vão brigar pelo papel de Alves dos Reis, o melhor e mais fácil, consentâneo com as atitudes dominantes que se não mudam não terão um final feliz.

No teatro corresponde-se a tudo ao que é público, a imagem é esmerada e sempre há, numa iminente falha de memória de um eminente, o Ponto a Pontar. Só ouve o actor que queira ouvir porque o ponto às vezes atrapalha gente fraca. O público ou o povão nem se dá conta.

Todos os sinceros participantes na Gnose, que fazem de Ponto aos papéis principais, estão de parabéns, porque temos actores que não ouvem da primeira e declamando a primeira bengala que lhes vem à cabeça, inquinam sucessivamente as deixas e os textos do actor seguinte. Entramos talvez no teatro surrealista sem querer. Afinal a realidade é teatro, de tanta gente boa e lúcida, a soprar para os verdadeiros actores. E se eles se calam e vão embora será que a peça fica a meio com o público a assobiar?

Enquanto não desistem e sempre se vai soprando, os únicos que farão história são os visíveis que gozarão da vida como o Alves dos Réis. Se passa na TV, nos jornais e na rádio é porque é verdade, quando o teatro é que é ficção, ou não?

O Telejornal na Madeira é mais extenso do que num grande país, deve ser para caber todas as peças de teatro. Alguns actores são polivalentes, talvez protegidos, sempre os mesmos todos os dias, aparecem duas e três vezes em cena no mesmo. Deve ser para martelar a mensagem que se confunde com comunicação. Malta cocaína, Lá Féria, anda cá fazer o troço de pimpineleira, a droga dos pobres a par dos "snifes" na cola.

Tenho que acabar porque já me sinto drogado pelo teatro, fica a mensagem, não venham tarde, a bilheteira fecha e os lugares são marcados.

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