A Censura do Governo

Quando soube que a TVI 24 iria transmitir um debate sobre o financiamento público em clínicas privadas, nomeadamente no caso da medicina nuclear, pensei que o tema seria sério. E ao assistir ao tal debate, as espectativas até foram suplantadas. Como diz a gíria popular, as denúncias que aquele debate deu a conhecer a nível nacional caíram que nem uma bomba. Tanto que praticamente de imediato todos os partidos da oposição vieram pedir esclarecimentos sobre a referida situação. Do lado do governo a reação foi a mais previsível de todas: ameaças de processos contra o médico que denunciou a situação. Porém, nestes casos há sempre um jogo sujo paralelo que tem como objetivo descredibilizar o acusante. É sabido que uma pessoa pode se destacar de duas formas: ou faz algo que o faça se destacar em relação a quem lhe rodeia, ou rebaixa todos os que estão à sua volta de modo a que, mantendo o seu nível medíocre, aparentemente se destaque dos restantes.

Eu costumo dizer que o governo não é incompetente. Por vezes eles podem parecer incompetentes devido as decisões que tomam, mas eu acredito que eles sabem muito bem o que fazem.  É tudo premeditado e planeado. A população só é informada de uma ínfima parte daquilo que acontece nos bastidores da política…e é essa falha de informação que pode levar a pensar que os governantes são incompetentes. Ora, a prova de que não são incompetentes está no tal jogo sujo que começou sem demoras e de forma descarada. Este veio sob a forma do programa Especial Informação, emitido pela RTP-M no dia 21/02/2019 (link).

O objetivo apresentado pelo apresentador do programa foi discutir a polémica que envolve a unidade de medicina nuclear da Madeira, nomeadamente a relação entre o setor público e o setor privado. O debate deveria também ter em conta as reações que surgiram derivadas da reportagem emitida pela TVI 24. Para tal foi convidado um painel de médicos especialistas naquela área da medicina, que incluiu o Dr. Rafael Macedo, o médico diretor da unidade de medicina nuclear da Madeira que denunciou toda a situação.

Eu, no meio da minha ingenuidade, e considerando o painel escolhido, pensei que ao longo do programa iriam debater temas como as vantagens e desvantagens do setor público em assumir os cuidados de saúde da população, as razões pelas quais o governo regional decidiu pagar ao setor privado em detrimento de utilizar os equipamentos existentes no setor público (que foram pagos por todos os contribuintes), entre outros tópicos de verdadeira utilidade pública. Contudo, aquilo que eu vi foi um programa aparentemente encomendado para chacinar o Dr. Rafael, que ali sozinho, foi literalmente atirado contra os lobos. Os danos não foram tão graves como poderiam ser porque esses lobos não conseguiram mostrar ter a categoria, cultura e educação que é esperado se ter na classe médica. Vou dar alguns exemplos que mostram como o painel que rodeava o Dr. Rafael estava ali apenas para o deitar abaixo.

O Dr. Eugénio Mendonça começou a sua intervenção interrompendo a palavra ao Dr. Rafael para perguntar-lhe de onde tirou o valor de 600€ por exame cobrados no setor privado versus 8€ como custo no setor público. Após a resposta do Dr. Rafael, o Dr. Eugénio questionou se o valor de 8€ não incluía despesas relativas ao estabelecimento físico, água, luz, honorários médicos, produtos utilizados, etc. A resposta do Dr. Rafael foi concisa em termos de valores. Agora eu pergunto, a questão colocada pelo Dr. Eugénio não parece ter sido feita de má fé? Ou espera-se que as despesas referidas totalizem 592€ por exame?

Seguidamente interveio o Dr. Mário Rodrigues. Nessa intervenção a confusão foi tal que não foi possível tirar grandes conclusões. Dada esta situação, o moderador do programa optou por passar a palavra ao Dr. João Pedroso Lima.

O Dr. João começou a sua intervenção com algo que nada tinha que ver com o tema do debate, nomeadamente envolvendo questões sentimentais de âmbito meramente pessoal. Isto ao meu ver, além de mostrar falta de profissionalismo dada a seriedade da questão em discussão, ainda pode ser visto como uma forma de assédio moral apontado contra o Dr. Rafael. Aparentemente o Dr. João ficou ofendido com um post publicado no perfil pessoal do Dr. Rafael no Facebook.Então agora qualquer coisa publicada no Facebook tem caráter oficial? O resto da intervenção do Dr. João derivou do sentimento de ofensa com que ficou derivado do post do Dr. Rafael.

Seguiu-se uma nova intervenção do Dr. Eugénio, desta vez com algum conteúdo. Ele referiu (e bem) que o cerne desta questão é política e não médico-científica. Só não percebi onde é que o Dr. Rafael pôs em causa a qualidade dos serviços prestados a nível da medicina nuclear na Madeira. O que ele referiu é que a unidade de medicina nuclear hospitalar tem melhores equipamentos que a clínica privada a qual o governo paga para executar a maioria dos exames. Outro ponto referido foi que a população tem a possibilidade de optar ser tratada no setor público ou privado. Mas como isso será possível se o setor público não disponibiliza esses serviços em relação à medicina nuclear? Afinal que diversidade de exames é que a unidade de medicina nuclear hospitalar poderia realizar e só não o faz porque o governo decidiu não adquirir os consumíveis necessários à realização desses exames?Lamentavelmente as restantes intervenções do Dr. Eugénio tiveram como base a sua preocupação em não alarmar a população…deve achar que é melhor a população ficar na ignorância do que conhecer a realidade que a rodeia.

Por fim, a intervenção do Dr. Luís Oliveira cingiu-se na defesa da empresa que dirige. Justificações por todos os lados, com uma cereja no topo do bolo quando disse que não vem para a Madeira fazer caridade.

Concluindo, este debate pareceu-me muito nebuloso. Não foi possível tirar nenhuma informação ou conclusão verdadeiramente útil, seja em que quadrante for. Muito dispare em relação ao debate promovido pela TVI 24. Sinceramente, o cerne desta questão tem de facto caráter político não médico-científico. Então para quê este debate tomou os contornos que tomou? Será que foi esse o objetivo? Jogar areia nos olhos da população para distrair sobre as questões que realmente interessam? Afinal quem é que decidiu que a maioria dos exames de medicina nuclear seriam feitos numa clínica privada em detrimento das próprias instalações públicas e mais bem equipadas que o setor privado existente na Madeira? São os contornos relacionados com esta questão que têm de ser analisados.

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