A grande coragem da não-violência

A acção não-violenta constitui uma forma de Acção concreta e construtiva que em si implica a maior concentração possível de Coragem de que um ser humano é capaz.

Todos poderemos antecipar a gigantesca coragem necessária àquele anónimo activista chinês que, desarmado, se interpôs à frente de um tanque, naquele que foi o icónico momento definidor do levantamento não-violento da Praça de Tiananmen, em 1989.

A violência é, sempre, o recurso mais facilitista e imediato dos condicionalismos superficiais humanos, e, nessa imediatez, identifica a mais frágil e de curto prazo das reações humanas.

Ao longo da História, todos os Mestres espirituais que mereceram esse nome nos ensinaram a Verdade insofismável de que a Não-Violência é o único meio consonante com a grande finalidade humana de atingir colectivamente e individualmente a Paz e a Harmonia. É também o único meio que em si já prefigura o Fim que deseja alcançar; e fazendo-o em torno dos valores correlativos da Coragem, da Paciência e da Inteligência; porque a Coragem, sem a solidez perseverante da Paciência e sem a claridade da Inteligência, nada mais é do que um ímpeto bárbaro e acéfalo da acção pela acção, que desembocará, sempre, no vazio de sentido do efémero…

Todos os Mestres espirituais foram claros adeptos da Não-Violência. Mais próximos de nós cronologicamente, foram-no univocamente seres da nobreza ética de um Henry David Thoreau, de um Leão Tolstoi, um Mohandas Gandhi, e de um Martin Luther King…

Saliento aqui o caso de Gandhi. No seu corpo franzino albergava-se uma imensa Coragem e Força espirituais. E ele, só pela potência activa do seu elevado exemplo, respeitando integralmente o conceito prático da Não-Violência, conseguiu derrotar o mais poderoso império colonial e militar da época, o britânico, e atingir a independência de um subcontinente…

Com Coragem, Paciência e Inteligência, Gandhi percebia que a violência, seja em que contexto for, é um círculo fechado e viciado em que violência só gera, e gerará, mais violência; sendo que estruturas militaristas, como as do império britânico, esperam, e estão preparadíssimas para lidar com levantamentos armados, mas não para lidar com a força das ideias elevadas e dos exemplos éticos pacíficos.

Gandhi sabia que o instinto violento vem dos recantos mais escuros e tenebrosos da experiência humana; e que, para evoluirmos como espécie, temos que o ultrapassar e transcender. Com a Força incomensurável do seu activismo pacifista, por meio de acções inteligentes, como a campanha do sal, e a promoção da autossuficiência da roca de fiar, entre outras do mesmo alcance não-violento prático, Gandhi demonstrou que todas as potências militares, aparentando ser de ferro, têm os pés de lodo e de barro… Acções não-violentas baralham e desconcertam o condicionamento letal da superficial e boçal mentalidade de Poder, e a reduz à perplexidade de não poder neutralizar e dominar o que em si não se expressa militarmente, porque radica na dimensão do Espírito…

O homem pequeno e franzino que foi Gandhi serviu de morada a um dos maiores 'guerreiros espirituais' que a humanidade conheceu. Ele era um «guerreiro da Alma», como nomeou Nietzsche todos os que privilegiam os instrumentos do Espírito e da Inteligência, capazes, com a sua ingente Força, de transmutar civilizações, sobre a pobre ineficácia das armas militares, só capazes de despedaçar corpos e de derramar sangue, mas impotentes, face à Força do Espírito e ao sentido profundo da História, que caminha, inexoravelmente, para a unidade humana, para a Paz e a Harmonia da humanidade no seio do planeta vivo e uno.

Sem nunca terem disparado um tiro, Thoreau, Tolstoi, Gandhi e King, entre outros, transmutaram os valores da Civilização, derrubaram barreiras e preconceitos com milénios… Algo que nenhum exército, que nenhuma «glória» militar, alguma vez seria sequer capaz de emular.

Sejamos absolutamente corajosos! Ao ponto de rejeitarmos para sempre as superficiais armas que só despedaçam corpos, assumindo no nosso quotidiano os potentes valores da Não-Violência, da Paz, da Inclusão e do Respeito pela vida de todos os seres, valores transmutadores de civilizações e triunfadores sobre os milénios.

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