Recuperar a dimensão política da Educação como bem público

Serenamente, sem pressas, mastigando palavras e conceitos, indo à frente e regressando, ando a ler a última edição da notável revista A Página da Educação. Uma revista que todos os professores, todos os políticos, governantes ou não, deveriam assinar para conseguirem, creiam-me, sem qualquer sobranceria, poder ver mais longe. Porque a Educação e, claro, o sistema educativo, não pode quedar-se em um labirinto meramente administrativo, de insustentáveis e enervantes burocracias, de repetições e de ideias pré-concebidas, de rotinas próprias de quem não sabe fazer mais do que aquela tarefa. Como li em um artigo de Miguel Santos Guerra, "no hay connocimiento útil si no nos hace mejores personas". O problema está, portanto, entre a imensa e desarticulada tralha programática e a organização de um sistema que sirva a educação para uma sociedade melhor. Aos poucos e, intencionalmente, quando era expectável o seu reforço no quadro de um paradigma ajustado a um Mundo que corre sem freio, foram roubando pensamento crítico e, hoje, pergunta-se, afinal, qual o papel do conhecimento? Para que serve e ao serviço de quem está, pergunta Miguel Santos Guerra.

Por aqui chego a Susan L. Robertson, Professora de Sociologia da Educação, na Universidade de Bristol: "Em mais do que uma ocasião tenho sentido um claro desconforto em relação ao quanto, hoje em dia, a educação é enquadrada em termos económicos. Os alunos são "capital humano", ou usando a expressão cunhada pelo economista Gary Becker, "máquinas de habilidades"; a educação é um investimento cujo valor é medido pela dimensão do retorno financeiro que traz ao futuro do indivíduo (graduate premium); num número crescente de países a educação é referida como um setor de serviços que contribui, diretamente, para o produto interno bruto (PIB) (...)"

Este início de texto de Susan Robertson trouxe-me ao pensamento um artigo publicado na edição de Outubro de 2000, do Le Monde Diplomatique, artigo assinado por Riccardo Petrella, politólogo e economista italiano, na altura Conselheiro na Comissão Europeia e Professor na Universidade Católica de Louvain (Bélgica). Falava o autor das cinco armadilhas para a educação e de uma cultura de guerra, a saber:

1. Primeira armadilha: “A crescente instrumentalização da educação ao serviço da formação dos recursos humanos”. Isto é, o recurso humano, habilmente, passou a ser considerado como uma mercadoria económica. Melhor dizendo, direitos a um canto, porque o que interessa é o rendimento do Homem ao serviço da economia.

2. Segunda armadilha: “A passagem da educação do campo do não mercador para o do mercador”. É a educação considerada como um grande mercado.

3. Terceira armadilha: a educação “apresentada como um instrumento-chave da sobrevivência de cada indivíduo” (...) nesta era de competitividade mundial. No essencial, dir-se-á que a escola está transformada no lugar onde, subtilmente, se aprende uma cultura de guerra.

4. Quarta armadilha: a da “subordinação da educação à tecnologia”. Ora, a mundialização é filha do processo tecnológico pelo que resta à educação fornecer os instrumentos de adaptação ao pensamento único.

5. Quinta armadilha: “a utilização do sistema educativo enquanto meio de legitimação de novas formas de divisão social”, isto é, uma sociedade dividida entre qualificados e não qualificados, entre os que dominam o conhecimento e os excluídos desse acesso. Estamos a falar do “e-comércio”, da “e-educação”, da “e-empresa” e do “e-trabalhador”.

No essencial, Susan L. Robertson, no seu notável artigo, que conjuga o mercado e o Estado, o bem público e o privado, vem desafiar o economicismo, concluindo: "(...) e se desafiássemos o domínio do pensamento económico da educação? E se ousássemos construir um conjunto diferente de assunções baseadas em valores e considerássemos que é um bem societal que contribui para o bem público? Que ações poderiam resultar daí? Primeiro, discutiríamos como sociedade o que pensamos ser importante aprendermos;

em segundo lugar, provavelmente, não usaríamos a terminologia como "capital humano", mas referir-nos-íamos a pessoas, reconhecendo-as não como máquinas de habilidades, mas como seres sociais e morais complexos, com necessidades, capacidades e vulnerabilidades; terceiro, iniciaríamos um debate sobre a educação como bem societal (...); quarto, asseguraríamos um debate público contínuo sobre a centralidade da educação, na produção de um público e de um político capazes de pôr limites a qualquer grupo que pretendesse fixar os nossos presente e futuro de formas que colocam a economia para além da política e os mercados acima da política e da sociedade (...)".

Regresso ao início. Pois bem, "no hay connocimiento útil si no nos hace mejores personas". Pelo caminho que obrigam a seguir o desfecho continuará a ser trágico. Repensar a EDUCAÇÃO e todo o sistema é pois a maior obra que se pode edificar no sentido de um mundo melhor.
Ilustração: Google Imagens.
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