O massacre das cabras das ilhas Desertas


Há cerca de quinze anos comecei a intervir publicamente sobre o assunto do brutal extermínio das cabras da Deserta Grande e do Bugio como estratégia de gestão ambiental dessas ilhas por parte do Parque Natural da Madeira.
Através de cartas de intervenção pública e de artigos de opinião no D.N. e no Tribuna da Madeira demonstrei o meu repúdio público por tal estratégia, e sustentei que tal medida, além de historicamente e cientificamente absurda, configurava, e configura, um acto de ECOFASCISMO por parte do P. N. da Madeira e do Governo Regional, sendo do ponto de vista ético uma monstruosidade vazia de compaixão e de amor pela Natureza e pelo o fenómeno da Vida e da sua Evolução biosférica.
Estudando de há 20 anos, e escrevendo regularmente sobre, as temáticas da Ética Ambiental e da Ecologia de Reconciliação, propus, e proponho, que a estratégia biocêntrica de reconciliação ecológica oferece ferramentas e planos não letais e inclusivos para compatibilizar as cabras com o ecossistema das Desertas, e em geral as espécies introduzidas com os ecossistemas endémicos.
As minhas intervenções ao longo do tempo aconteceram perante a indiferença absoluta das associações (pseudo) animalistas então existentes (as mesmas que organizam jantares para angariar fundos para os cães e gatos, onde a carne de outros animais mortos com sofrimento integra o menu…), e dos partidos políticos, e com a oposição dos grupos ambientalistas locais, onde os seus lideres têm sido explícitos no apoio ao extermínio ecofascista a tiro de espingarda das cabras das Desertas, e dos capríneos (e dos gatos e cães ferais) nas serras da Madeira.
Voltando às Desertas, estudando as crónicas coevas dos primeiros navegadores portugueses que chegaram a estas ilhas, podemos verificar que ANTES DA INTRODUÇÃO das cabras já as Desertas constituíam um ecossistema árido, erodido e destituído de vegetação de porte médio ou grande; sendo que a presença de cabras nos últimos 600 anos não extinguiu nenhuma espécie vegetal ou insectos nessas ilhas, demonstrando não ser assim tão nocivas no seio desse ecossistema, em si mesmo árido e erodido devido à sua reduzida área exposta ao imenso Atlântico, e não aos pobres capríneos.  
O problema está em que o ambientalismo mainstream, embora não o admita, está refém de uma ideologia primitivista e antropocêntrica que, por um lado, sonha com inalcançáveis purezas originais, e, por outro, reserva ao Homem o papel de juiz e carrasco do que deve ou não subsistir num dado ecossistema; como se a Evolução não fosse por definição dinâmica e temporal, composta de migrações e de mudanças, e precisasse de intervenções artificiais para fixar um mítico ponto do passado como medida eterna do que um ecossistema deve ser.
Essa ideologia que sonha com purezas originárias, e autoctonias fixas, e que se pretende opor, com recurso à violência se preciso, a migrações que, a seu ver, maculam esse pretenso estado de 'pureza', configura uma espécie de fascismo, de 'nacionalismo ecológico', que merece a designação de Ecofascismo. E tal Ecofascismo constitui um problema grave que o ambientalismo e seus integrantes devem ter a coragem de enfrentar, debater e ultrapassar.
Folgo muito de saber que hoje, já parecer existir na nossa sociedade uma sensibilidade e vontade de dar visibilidade e expressão colectiva a este assunto e a esta problemática. Considero que tal expressão deve ser organizada em torno de movimentos societários informais, livres e apartidários; e aconselho aos organizadores que não se deixem instrumentalizar por forças partidárias, sejam elas quais forem, por definição oportunistas e superficiais. E aconselho também que se estudem e apresentem as alternativas éticas e de reconciliação para concretizar um novo paradigma de gestão ambiental, guiada pelos valores axiais da paz, da compaixão e do 
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