O sistema educativo é muito mais que pianos e xilofones!

Não me deixa irritado, longe disso, mas deixa-me preocupado quando alguém mascara a realidade, ainda por cima deixando pontas soltas, pensando que outros, como alguém referiu, "são parvos ou andam a tirar documentos para estúpidos". Isto a propósito do "Estado da Educação na Madeira", onde o secretário regional tentou, em vão, desfazer (!) "três equívocos recorrentes" derivadas de "percepções incorrectas sobre o abandono escolar, o rendimento dos alunos e o número de licenciados (...)". Face a alguns dados estatísticos apresentados, em função de uma Região Autónoma, dotada de órgãos de governo próprio, com um poder político ininterrupto há 43 anos (estabilidade, dizem), com um número de alunos limitado em função do universo da população, questiona-se, como são possíveis tantas e significativas fragilidades? Como justificar o desencanto?


Uma intervenção que, no essencial, não trouxe rigorosamente nada de novo, no sentido de perceber-se uma ideia, pelo menos uma, mesmo que genérica, para o sector educativo. Fez-me lembrar a velhinha história da mãe de um recruta que, no dia do juramento de bandeira, levando o filho o passo trocado, aos seus olhos, todos os outros do pelotão marchavam de forma incorrecta! Reforcei ainda mais esta ideia, quando li o seu pedido por uma "avaliação rigorosa ao sistema educativo da Madeira". Todos os outros, professores, universitários, investigadores, pensadores e autores, aos olhos do político é que marcham de forma errada. Aliás, obviamente, não era crível que viesse testemunhar as fragilidades, porque o exercício de uma certa política favorece a cegueira, o que impede ser verdadeiro e visionário, eu sei, mas seria honesto que justificasse, politicamente, as suas opções, mesmo com "o passo trocado" aos olhos de outros, relativamente ao que se espera de um processo educativo integrado, desde as políticas de família até ao sistema organizacional, curricular, programático e pedagógico.

O que tem acontecido, isso sim, pegando nas suas próprias palavras, que se voltam contra si, têm sido sucessivos "equívocos recorrentes" de uma hierarquia política que se especializou em processos burocráticos, que o digam os professores, castradora da liberdade e do pensamento crítico, com tiques e atitudes de quero, posso e mando, facilmente provado através da perseguição e da imposição da subserviência, quando, no quadro do sistema, alguns tentam fazer mais e melhor. O que resta deste sistema é a centralização, a maximização e a padronização, algumas das características definidoras da Sociedade Industrial, atributos absolutamente desencontrados do tempo que estamos a viver.

Hoje, infelizmente, continua a não ser possível falar-se de estabelecimentos de aprendizagem. Fala-se de estabelecimentos de ensino. E isso faz toda a diferença, na mentalidade e na forma como se aborda a Educação, como deve ser pensada e gizada para este tempo de conflito entre o velho e o novo. É por isso que assistimos a posicionamentos "esquizofrénicos", pois ora falam de robotização esquecendo outros patamares primeiros, ora de "salas do futuro" (para poucos) esquecendo-se da paulatina transformação da arquitectura dos edifícios escolares, ora falam de uma inexplicável opção pelos "manuais digitais". Neste caso, tendencialmente, pretendem deixar o manual em papel para dar lugar à utilização do "tablet". Ora, se a internet está aí para quê o manual? O "tablet" deve servir para muitas outras coisas e não para replicar os manuais com alguns enfeites que pouco adiantam! 

Por outro lado, intencionalmente, porque não sabem ou porque não desejam, passam ao lado de uma actuação a montante, no sentido da mudança de mentalidade no seio das famílias, contornam a pobreza estrutural que se reflecte na escola e não ligam pevide, também, a uma nova organização da sociedade. O sistema para ser eficaz não pode estar desligado dos outros sistemas. Tem de interagir. A abordagem tem de ser transversal e integrada. E neste processo até se esquecem da autonomia dos estabelecimentos, porque denotam medo em facultar aos professores a capacidade de se organizarem de forma diferenciada. Preferem a uniformização à necessária variabilidade; preferem o controlo à inovação.

Ora, o sistema é muito mais que taxas e estatísticas. Não sobrevive com máscaras nem com leituras estatísticas onde cada um extrai e enaltece, embora de forma pobre, o que lhe interessa em um determinado momento. Aos políticos pedem-se ideias portadoras de futuro, pede-se pensamento estrutural, pede-se que sejam prospectivos e pede-se que saibam para onde caminham. O sistema está esgotado e quando seria espectável, da parte do presidente do governo, uma posição marcando a diferença, eis que, ainda ontem, veio dizer que "não está aqui para brincar à política nem aos partidos" porque "não há tempo para politicadas (...)". Pois é, senhor Presidente, é exactamente isso que há muito acontece, politiquices e "politicadas". O sistema, saiba, é muito mais que pianos e xilofones!
Ilustração: Google Imagens.
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