9 coisas que deve saber sobre aquacultura marinha


Se consome peixe, a não ser que o tenha capturado pessoalmente ou tenha feito as perguntas certas, as chances são altas que ele provenha da aquacultura. Esta indústria multiplica-se "como cogumelos", cresce mais rápido que qualquer outra atividade de criação animal e fornece atualmente metade do pescado consumido nos Estados Unidos.

À medida que a pesca comercial continua a esvaziar os oceanos de vida, um terço dos recursos pesqueiros estão esgotados e os restantes devem conhecer esse destino até meados do século, a piscicultura é encarada como a resposta à satisfação da crescente procura mundial. Mas será esta a solução mágica para satisfazer as necessidades de alimentos? Pode a piscicultura marinha satisfazer com segurança a procura por pescado de três mil milhões de pessoas no mundo?


Este artigo encara a aquacultura e os efeitos a longo prazo nos recursos pesqueiros, nas pessoas e nos outros animais. Com esta industria a ser apresentada frequentemente como o modelo acabado de produção alimentar, deve conhecer estes nove factos sobre a criação de peixes, seja ou não consumidor.

1 – O peixe da aquacultura tem valor nutritivo duvidoso.

Este é um paradoxo frustrante para quem consome pescado por ser mais saudável: os benefícios nutritivos do peixe reduzem-se significativamente quando este é "cultivado". Vejamos o ácido gordo ómega 3,  por exemplo. O peixe selvagem obtém o ómega 3 das algas que ingere. Os peixes nas jaulas são alimentados com ração produzida a partir de milho e soja, que não tem ómega 3. Esta dieta contranatura baseada no milho, significa que os peixes acumulam níveis de gordura pouco saudáveis - contêm os ácidos gordos errados. Além disso os peixes recebem doses regulares de antibióticos que podem causar resistência a antibióticos nos humanos.

2 – A piscicultura cria tantos problemas como os que resolve.

Algumas explorações aquícolas funcionam apenas com ração, mas outras não prescindem de pescado  e em grandes quantidades na alimentação da criação. As explorações de atum ou de salmão consomem cinco quilos de pescado selvagem, por cada quilo de peixe produzido. A consequência é que as espécies das quais se alimentam o atum e o salmão (arenques, anchovas) são capturadas até ao risco de extinção, para alimentar os peixes nas jaulas. “Capturámos todos os peixes grandes e agora vamos atrás dos que são o alimento daqueles”, diz a organização não governamental Oceana, que acusa a voracidade da aquacultura pelo declínio das populações de baleias, golfinhos, focas, leões marinhos, atuns, robalos, salmões, albatrozes, pinguins e outras espécies.

3 – Os peixes são criados em sofrimento e stress

Contrariamente às ilusões vendidas, a investigação mais recente mostra de forma conclusiva que os peixes são criados num ambiente de stress e sofrimento. Num estudo, peixes injetados com veneno de abelha mostram comportamento bamboleante ligado a dor e, comparados com um grupo de controlo, exibem atividade reduzida, demoraram três vezes mais tempo a comer e têm taxas respiratórias mais altas. Os peixes nas jaulas estão sujeitos a stresses rotineiros de hiper confinamento ao longo das suas vidas e são tipicamente abatidos de forma lenta e dolorosa - evisceração, fome ou asfixia.

4. Os peixes da aquacultura estão carregados de doenças que contaminam os peixes selvagens

Os peixes da aquacultura vivem tão comprimidos como moedas num bolso, por exemplo vinte e sete trutas no espaço duma banheira. Estas condições não naturais propícias à propagação de doenças e parasitas que se espalham e acabam por contaminar populações de peixes selvagens. Na costa canadiana do Pacífico, por exemplo, infestações de piolhos do mar forma responsáveis por mortandade em massa de salmões-rosa, que em alguns locais dizimaram 80% da população de peixes. Mas o prejuizo não se fica por aqui, pois águias, ursos, orcas e outros predadores dependem dos salmões para a sua sobrevivência. Quebras na população de salmões selvagens, levam ao declínio dessas espécies também.

5. As instalações de aquacultura estão cheias de toxinas, que danificam os ecossistemas locais

Não podem ser permitidos parasitas e doenças nas unidades económicas, então os operadores combatem essas pragas com aplicando antibióticos e outros químicos na água. Estas toxinas danificam os ecossistemas locais de formas que ainda estamos a procurar compreender. Um estudo descobriu que uma droga usada para combater o piolho do mar, mata igualmente uma variedade de outros invertebrados marinhos que não são ameaça, permanece na água durante horas e desloca-se até cerca de meia milha de distância.

6. Os peixes nas jaulas vivem nas próprias fezes

Os peixes também fazem cocó. Os dejetos dos peixes nas jaulas depositam-se nos fundos marinhos em quantidades suficientes para soterrar e matar toda a vida marinha na vizinhança até certa distância. Também promovem o crescimentos de algas que fazem diminuir os níveis de oxigénio na água e tornam-na menos capaz de suportar Vida. Quando o governo de Israel soube que o crescimento de algas provocado por duas instalações de aquacultura no Mar Vermelho estava a danificar os recifes de coral nas proximidades, mandou encerra-las.


7. Os peixes fogem das jaulas.

Na região do Atlântico Norte apenas, dois milhões de salmões escapam todos os anos. Resulta que aproximadamente 20% do salmão capturado como sendo selvagem é afinal salmão de aquacultura. Os peixes que escapam das jaulas procriam com os selvagens, comprometem a diversidade genética e prejudicam as populações selvagens. Os embriões híbridos de salmões são menos viáveis que os seus congéneres selvagens, os salmões híbridos adultos morrem mais cedo que os de raça pura. Esta pressão sobre as populações selvagens afeta novamente os predadores que dependem do peixe, como as orcas ou os ursos.

8. O paradoxo de Jevons

Esta contraintuitiva teoria económica diz que quando um método de produção se torna mais eficiente, a procura pelo recurso acaba por crescer em vez de diminuir, somo seria de esperar. Em concreto, à medida que a aquacultura torna a produção de peixe mais eficiente e o pescado torna-se mais disponível e barato, a procura aumenta. Isto conduz ao aumento das capturas o que põe em causa as populações selvagens. Assim, a construção de novas instalações de criação de salmões entre 1987 e 1999 fez baixar os preços e subir a oferta, a procura por salmão mais do que quadruplicou nesse período. Portanto a aquacultura contribuiu para aumentar a pressão sobre as já esgotadas populações selvagens de peixes em todo o mundo.

9. Quando todos os pesados custos ambientais são considerados, as instalações de aquacultura geram maiores custos que benefícios.

Um estudo descobriu que a aquacultura nas águas costeiras da Suécia é insustentável, não apenas ecologicamente, mas também economicamente. Outro relatório concluiu que a criação de peixe num lago chinês é uma escolha económica irracional, na perspetiva de toda a sociedade, com um balanço desequilibrado entre os custos ambientais e os benefícios económicos. Por outras palavras, a aquacultura gera elevados custos ambientais e estes custam dinheiro à sociedade. Nos Estados Unidos, a aquacultura gera custos ocultos de 700 milhões de dólares por ano – cerca de metade do valor comercial da produção da atividade.

E agora?

Com este longo rasto de doenças, químicos, dejetos e sofrimento e ainda a pesada pressão que coloca sobre as populações selvagens, via parasitas, fugas, e maior procura por pescado, a sustentabilidade da aquacultura emerge como uma história rebuscada. A já agora, peixe criado ou selvagem só é “saudável” quando comparado com comida com alto teor de gordura, como carne vermelha. Mas o peixe selvagem não representa uma grande vantagem nutricional: quilo por quilo, o salmão tem tanto colesterol como a carne moída e, virtualmente, todo o peixe selvagem contém mercúrio altamente tóxico.

Eis uma solução para o dilema do peixe da aquacultura: vote com a sua carteira e consuma menos pescado ou deixe de parte completamente. Obtenha o seu ómega 3 do linho, do cânhamo, da soja ou das nozes – todos estes sem colesterol nem mercúrio. E talvez então, como George W. Bush desejou num momento de comédia não intencional, “o ser humano e os peixes possam coexistir pacificamente.

Texto original de David Robinson Simon, traduzido por Paulino Ascenção.
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