Lições da viagem do Papa Francisco às Arábias


1 - A viagem do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos, para além de servir ao reatar do diálogo religioso entre o Cristianismo e o Islamismo em proveito da paz no mundo contra todas as formas de violência levadas a cabo pelos fanáticos fundamentalistas, serve também para nos dar a lição sobre a ideia que percorre as veias do Ocidente contra tudo o que venha do mundo Árabe. Esta tem sido também uma forma de fundamentalismo e de fanatismo entre nós, que até tem servido muito para descartar, assumir conscientemente a indiferença e ver em cada pessoa árabe um terrorista.

2 - A viagem do Papa ao mundo Árabe vem ensinar-nos que a humanidade é toda semelhante e que podemos, havendo vontade, estabelecer pontes de diálogo com todos os povos, culturas e religiões. Desse intercâmbio podem todos beneficiar dos valores comuns que levam à paz, à felicidade e à fraternidade humana. Assim, viu-se mais uma vez a condenação da violência em nome de Deus: “Todas as formas de violência devem ser condenadas sem hesitação… Nenhuma violência pode ser justificada em nome da religião.” 

3 - A 4 de Fevereiro, em Abu Dhabi, na Declaração assinada pelo Papa Francisco e o Grande Imã da Mesquita e Universidade de Al-Azhar (Cairo), Ahmad Al-Tayyeb, há uma vigorosa denúncia das injustiças e da miséria que afectam grande parte da humanidade. A declaração, que se intitula “Documento sobre a fraternidade humana pela paz mundial e a convivência comum”, faz um apelo “a toda a consciência viva que repudia a violência aberrante e o extremismo cego” e “aos que amam os valores da tolerância e da fraternidade, promovidos e estimulados pelas religiões”. Temos todos um dever elementar de assumir atitudes e usar palavras que conduzam à paz verdadeira da boa convivência humana.

4 - Face a este ambiente que promove o diálogo em ambientes por vezes escandalosamente assumidos como áridos, a única forma de construção de futuro, é a que somos levados a ter em conta também o ambiente de “extremismo cego” que algumas vezes nos rodeia. É mais fácil ver isso nos outros e menos em nós próprios. Em nome de argumentos falaciosos e algumas vezes carregados de interesses egoístas, constrói-se uma realidade cheia de violência e de desprezo pela diferença. Os fanáticos acompanham o nosso dia a dia, manifestam-se de muitas formas e feitios, em nome de um único objetivo, que “sejamos iguais a eles” (Amos Oz, Caros Fanáticos). Por isso, não admira ser esta a realidade por onde também andamos: “O fanático está sempre pronto a lançar-se ao nosso pescoço para nos salvar, porque nos ama. Ama-nos com um amor incondicional” (Caros Fanáticos, Amos Oz). 

5 - Neste deambular das palavras e das ações, a fim de conjugar positivamente Ocidente e Oriente, religião Cristã e Islão, com as nossas ações quotidianas, o texto conjunto assinalou um manifesto universal, que considero ser instrutivo para nós. Salienta “a importância de reavivar o sentido religioso e a necessidade de o reanimar nos corações das novas gerações, através da educação sã e a adesão aos valores morais e ao ensino religioso adequado, para que se afrontem as tendências individualistas, egoístas, conflituosas, o radicalismo e o extremismo cego em todas as suas formas e manifestações”. Tão certeiro para ajudar a purificar o ambiente em que andamos todos os dias enredados.
6 - No domínio da violência quotidiana, por exemplo o terrorismo da violência doméstica, também encontra este apelo certeiro a “necessidade indispensável de reconhecer o direito das mulheres à educação, ao trabalho e ao exercício dos seus direitos políticos” é outro aspecto reclamado no documento, que pede que “se trabalhe para libertar a mulher de pressões históricas e sociais contrárias aos princípios da própria fé e dignidade. Além disso, é necessário protegê-la da exploração sexual, do tratamento como uma mercadoria ou um meio de prazer, e da ganância económica”. O fanatismo rodeia-nos, junto com as derivas históricas culturais, que semeiam a tenebrosa ideia de que ainda podem existir uns que são mais do que outros e que tudo podem fazer sobre a realidade que consideram ser propriedade sua. 

7 - A bem do presente e pela salvação do futuro, devemos seguir Edgar Morin nesta ideia dirigida a cada pessoa,como membro da comunidade humana, pois na sua situação concreta pode viver e levar a viver esta fé: “acredito na multiplicação de oásis de resistência ligados pela ideia de fraternidade”. 


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