Faltam referências públicas

Por uma série de circunstâncias, nesta minha passagem pela Região, nos últimos dias tenho falado com pessoas, umas que bem conheço, outras que comigo se cruzaram e me deram o prazer de algumas fugazes conversas. Em síntese, diálogos do tipo: tenho acompanhado a situação e estou consigo. Política sem dignidade só afasta as pessoas, dizem-me! Agradeço, despeço-me e fica o bom sabor da simpatia manifestada. Situações que acabaram por traduzir, para mim, dois significados: primeiro, parecendo que não, as pessoas estão atentas e têm leituras sobre o que as rodeia; segundo, que o exercício da política não é confiável. Evidentemente que constitui um erro de grave avaliação, meter tudo e todos no mesmo saco. Não. Há gente boa, pessoas que, mais do que a ideologia partidária, lutam por uma sociedade decente, justa, equilibrada, digna dos deveres e dos direitos constitucionais que lhe assiste. Conheço muitos que trabalham no quadro da solidariedade, da ternura que manifestam pelos outros, que estão na política ou em organizações por dever de cidadania e paixão, por  um desinteressado serviço público à comunidade, porque assumem o seu dever de participar e construir uma sociedade democrática, pessoas que não suportam a pobreza e a doença dos outros, as assimetrias económicas, financeiras, sociais e culturais.  

Conheço, também, perdoem-me a expressão, gente que não tem onde cair morto, e aos partidos se alapam, enquanto emprego. Pacientemente, espreitam uma oportunidade. São artistas, alguns até jovens mas com uma alma de velhos contorcionistas, malabaristas e voadores com rede. Actuam debaixo de uma tenda esburacada e esfarrapada pelo tempo. E todos os dias mantêm-se no palco da vergonha. Lamento dizê-lo, mas faltam-nos referências públicas, confiabilidade, gente que faça jus a Sá de Miranda (1481/1558):

"Homem de um só parecer
Dum só rosto, uma só fé,
De antes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser,
Mas de corte, homem não é."



Faltam-nos gente desta estirpe que coloque no seu devido sítio os infantis e medíocres, os palradores de pacotilha, os falsos e interesseiros, gente geradora de espaços de ódio, de repulsão contra pessoas porque podem constituir entrave aos seus desígnios, gente faminta que, paradoxalmente, transporta na língua a palavra solidariedade, para fora, claro, mas completamente indiferente nos grupos que a sustenta. O que se está a passar, de governantes a quem lá quer aportar, equivale a um quase total descrédito. 

Ainda ontem, pela tarde, o telemóvel tocou. Do outro lado, um grande Amigo: "(...) só para saber como estás!" Que bom um Amigo lembrar-se do outro. E ficámos a conversar sobre os nossos desencantos, do número de Amigos que se contam em uma só mão, sobre as indignidades, a falta de vergonha, a insensatez e ausência de credibilidade, sobre o assalto desavergonhado às instituições, as múltiplas formas de corrupção, e todos nós, pela conjuntura, porque se tornou normal esta profunda anormalidade, sem qualquer ferramenta para dizer chega! O voto? Qual voto? A engrenagem é extremamente densa e complexa. Há medo em dizer NÃO... que "não vou por aí". Há uma cegueira em alguns e um encolher de ombros em outros.

A degradação das instituições só poderia dar nisto. Os Juízes e Procuradores não estão a salvo tantos são os escândalos, eu que sou de um tempo que se dizia, com distanciamento e respeito "ele é Juiz"; de olhar para um banco e ver nos seus administradores pessoas de altíssima responsabilidade; de olhar para os professores e tratá-los com deferência, ora, hoje, por essa tal degradação, os patamares de exigência que deveriam acompanhar o desenvolvimento, pelo contrário, entraram na esfera do oportunismo, do salve-se quem puder, de alguma indecência, ausência de honradez e até de decoro. Para alguns vale tudo, que enganar é palavra de ordem, fingir um apego à sociedade constitui a vocação primeira, enfim, tudo isto necessita de uma nova ordem, de uma configuração diferente, de onde sobressaia a confiança perdida. Como iniciar, perguntar-me-ão! Talvez pela família e pela escola, que mais do que a tralha "estudada" para o teste e para logo esquecer (a escola está cheia de "entulho"), se eduque para os valores, para o rigor, para os comportamentos desejáveis, para a democracia com responsabilidade e não para o "teatro" reles a roçar o ordinário. O resto, o conhecimento, vem por arrasto, naturalmente. 
Ilustração: Google Imagens.
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