Quanto mais me bates…

Detalhe de um mural de Joel Bergner
O povo madeirense mantém uma relação com o PSD em muito semelhante a um longo casamento destruído pela violência doméstica. Tal como nestes lamentáveis casos, 40 anos de casamento e namoro começam por ser maravilhosos, mas cedo se transformam em abuso e agressão e raramente acabam bem.

Tivemos com este partido, e à semelhança do que contam inúmeras vítimas de violência doméstica, um período de intenso namoro e de felicidade que fazia prever um casamento de sonho. Foram os anos em que o PSD trabalhou e melhorou as condições de vida dos madeirenses. Houve quem saísse de furnas e casebres e tivesse uma casa digna, milhares aprenderam a ler e escrever e descobriram com isso novos mundos, houve escolas e cuidados de saúde, houve novas acessibilidades e transportes, houve trabalho, dedicação e progresso. E o povo madeirense apaixonou-se e casou com o PSD. É claro que houve vozes discordantes, que aludiam a certos defeitos do cônjuge que depois se revelaria agressor, mas defeitos temos todos e a inveja faz falar, como se sabe.

Assim, e como não podia deixar de ser, passado o período cor-de-rosa e consumado o casamento, de forma abrupta ou traiçoeiramente gradual, a felicidade que parecia infinita acabou por dar lugar a todos os graus, matizes e subtilezas da violência psicológica, verbal, ou física que caracteriza estes casos. Ao nosso casamento com o PSD aconteceu algo semelhante. Passamos de “heróis do trabalho na montanha agreste”, a “povo superior” para melhor manipular ou a “patas rapadas” para melhor calar, tal como uma vítima de violência doméstica passa de “amorzinho” a “fdp inútil”. Nestes relacionamentos patológicos, os cafés ou convívios com amigos e familiares são, aos poucos e insidiosamente, substituídos pelo ciúme, pela desconfiança, pela intriga, de forma a criar conflitos, envenenar amizades e isolar a vítima, para melhor a controlar. Uma vez mais, em tudo semelhante às liberdades que se quiseram coatar e limitar, desde a liberdade de expressão e de livre-associação, ao direito à mobilidade e à continuidade territorial, não esquecendo as velhas estratégias de dividir para reinar, colocando uns contra os outros e tentando enfraquecer ambos, e a estratégia do inimigo externo, que tenta ressuscitar a aversão à república ou aos cubanos.

Tal como as vítimas de violência doméstica, também muitos madeirenses resistem a reconhecer ou aceitar que se deixaram enredar em semelhante teia. Outros podem até acreditar que têm o que merecem porque, afinal, permaneceram no casamento, apesar deste estar longe de perfeito. Mas tal como nos relacionamentos íntimos, nada disto apaga ou retira culpa ao agressor, já que os resultados deste casamento com o PSD estão à vista, são factos comprovados e não matéria de opinião. Um relacionamento de respeito e defesa dos madeirenses não deixaria um buraco financeiro gigantesco para os madeirenses pagarem, não nos traria desemprego ou empurraria para a emigração os nossos familiares e amigos, não fomentaria salários de miséria nem admitiria as situações de pobreza e exclusão que vemos aumentar, nunca permitiria que os madeirenses tivessem razão ao usar palavras como fraude, compadrio, nepotismo ou corrupção, não alimentaria monopólios tão lesivos para a Madeira, teria já tratado da doença que grassa na saúde e não se atreveria nunca a atribuir dinheiros públicos para servir agendas e prioridades obscuras, que tanto ensombram o presente e o futuro do nosso arquipélago e que nos mostram o erro da nossa união.

As juras de amor, a baba e o ranho do arrependimento, as promessas de mudança ou de reencontros e saudosos regressos ao passado cor-de-rosa, por parte do cônjuge agressor, também fazem parte do quadro clínico desta patologia. Por isso, é fundamental que os madeirenses reconheçam onde e como falharam e se disponham a enveredar por caminhos mais acertados. Sabemos que falhámos por inércia e fraca cultura de cidadania ativa, mas, mais importante ainda no presente contexto, sabemos quem nos conduziu até aqui e o que esperar de promessas que desesperam unicamente para evitar a separação final.

Reconhecer o fracasso das nossas opções passadas não é vergonhoso. É ser íntegro, corajoso e coerente e mostrar que outro caminho é possível, mas que é preciso traçá-lo. É também uma mudança que devemos aos nossos descendentes e ao seu futuro. Tal como diríamos a uma vítima de violência doméstica que estivesse relutante e insegura em dar o primeiro passo para livrar a sua família da violência e da agressão. Tal como ela, cabe-nos decidir se queremos continuar a ser vítimas e a levar porrada ou se queremos reagir, castigar os agressores e ajudar a traçar um caminho mais saudável e feliz para todos. Porque é possível e é preciso!


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