Como avaliar um Povo Superior I



Ao viajar, cada um aproveita como quer, há os contemplativos que trazem uma imagem, há os analistas que fazem comparações. Em qual se encaixa? Ai credo, eu quero é distrair a cabeça. Então é contemplativo, deixa fruir o ambiente, delicia-se, virá sereno e o investimento valerá bem cada tostão para arejar. Se é analista, é um sofredor, não é que não areje mas a cabeça começa a funcionar sob o ponto de vista dos sintomas empíricos de desenvolvimento humano.

Em primeiro lugar o respeito pelo silêncio indica que todos têm palavra e não precisam de berrar para se fazer ouvir e o seu tempo é respeitado. Também significa que o ruído não faz considerar ou tornar alguém superior. Os escapes livres ou muito ruidosos são coisa de "terceiro mundo" mas, é quase piada a lei ser praticamente a mesma no caso da Europa. Significa que temos terceiro mundo na Europa? Cada um que tire ilações. Não se sabe como pode coexistir uma lei do ruído e inspecções periódicas a par dos roncadores da madrugada a ecoar entre prédios. Que sinal de superioridade terceiro-mundista, quem reclama é esquisito.

Lamento mas é verdade, o ruído no hemisfério norte tende a ser menor conforme se sobe desde o Equador. Foi uma gentileza dizê-lo assim. Os do norte sabem-no pelos decibéis das conversas ou dos equipamentos e ainda nas horas em que se produzem. Pode ser choque de costumes e culturas mas também uma depreciação grave nalgum verdadeiro Povo Superior que os costumam caçar e punir, por cá parece uma averbação positiva nos estatutos anti-sociais.

Que mais podemos observar de forma empírica? O tipo de notícias nos jornais são excelentes espelhos da sociedade, do que valorizam para ser notícia, do que vende e faz ler como informação, dos desvios de interpretação para satisfazer a maioria e que não faz evoluir a sociedade no bom sentido assente na verdade.

A educação, a etiqueta e as regras cívicas não devem ser intermitentes nem ostensivamente transformadas em salamaleques. O profissionalismo é um acto de conhecimento, de educação e de civismo. As linhas de espera são para dar espaço ao bom funcionamento e à concentração no que deve ser feito. Cumprir é um acto de Povo Superior.

O número de pessoas a ler nas paragens, estações e transportes públicos e o que lêem dão clara noção do grau de evolução da sociedade. A pontualidade também. E por falar nela, estar a tempo é estar antes para começar a horas, não em cima, nem depois como forma arrogante de ser superior. A organização dos transportes públicos são outro indicador, porque mostram que a gestão afeiçoa-se às necessidades mais comuns e não são uma imposição para o lucro ... não raras vezes a razão da perca. Nem reparamos quando tudo está sincronizado, o bom não desperta atenção, funciona. Para isso foi estudado antes de implementar. Não quero tocar nas ruas e estradas para vos distrair do essencial mas, também podíamos.

O pragmatismo, a preparação e o tempo de duração das reuniões provam o grau de eficiência, de conhecimentos e profissionalismo. Se estás sintonizado e preparado, e teus colegas também, fazem um bom grupo de trabalho e nunca precisas mais do que 15 minutos de exposição, a base está lá e só lanças ideias novas à discussão. Alguns, por cá, derretem-se com o ego e maçam. Outros acham bem marcar reuniões descoladas do essencial para contribuir para a ineficiência, do tipo aulas de manhã com reuniões ao fim da tarde.

Ainda sobre reuniões, se as escolhas de agora não são feitas por aptidão, é reunir durante todo um dia que nunca chegarão à eficiência dos 15 minutos. Os casos de pagos para corpo presente é um roubo e um insulto à oportunidade e ao profissionalismo.

Os serviços públicos a funcionar sem cunhas nem bichas significa pura e simplesmente que funciona e está em dia. É quando a eficiência ultrapassa as necessidades. Nisto de viagens os aeroportos são a cara chapada do país. Um dia, num país que não importa dizer qual mas bem acima do equador, um grupo viu-se sem malas. Não fomos a qualquer balcão, não abrimos sequer a boca para reclamar, à chegada já sabiam do sucedido e todos tivemos um kit de variadíssimas coisas pessoais para passar uma noite, porque sem falta teríamos a mala no outro dia de manhã. Sente-se profissionalismo e controle da situação, o profissionalismo é um respeito superior. Como seria noutros locais de tarifas caras onde se paga tudo como noutros sítios?

A distância entre carros nas vias mais aceleradas, os piscas e a retoma da faixa nas ultrapassagens determinam o respeito que se tem pelos outros e como queremos estar integrados na sociedade e não uma excepção às regras. Muitas excepções não é de povo superior. A noção de espaço pessoal de cada um é um sintoma de educação, não respeitar não acelera nada, só complica.

O aborrecimento, o enfado, a vontade de trabalhar e os ambientes de trabalho, traduzem bem o ânimo e o respeito. Sente-se quando tudo está errado ou certo. Todos disfarçam mas todos absorvem a realidade, excusam disfarçar porque não resulta, a comparação é mortal.

Estas e outras, todas juntas, fazem-me levar a ideia de uma região ou um país. O lado positivo e as influências negativas, porque também há países abalroados por outras culturas e precisamos de mais tempo para avaliar com rigor. As fugas da pobreza, das ditaduras e da guerra são factores que se devem respeitar e esperamos obter em troca o respeito pela cultura que deu certo e tornou um Povo Superior. Se foi desejado e escolhido é sinal de que a avaliação foi globalmente boa. Impor o que deu errado no sítio de que se foge é sinal de um agente que ajudou a estragar, e vai fazê-lo de novo. Integrem-se nos parâmetros de sucesso de quem acolhe.

Portugal copia as leis mas não as faz respeitar e sucedem-se as excepções por consentimento, falta de fiscalização ou punição. "Está-se bem" mas ninguém se sente bem ou confiante, faz falta a auto-análise e copiar os exemplos positivos por convicção. A melhor lei é a do Povo Superior que não sentiu necessidade de pô-las por escrito e muito menos executar porque a educação existe. Por isso que apostar na educação, ou não, é sintoma de Povo Superior.

Um dia observei que numa gala a primeira dama não vai de calções, recriminaram com a desculpa de que "o que é bom é para se ver". A graçola venceu mas não os vejo entrar qualquer casa real, apesar do sangue azul de Povo Superior.
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