A ERA DOS ACUSADORES

Moral e Ética são duas coisas distintas. Enquanto a Moral abarca linearmente e literalmente os costumes dominantes de um dado paradigma sociocultural, a defesa do conformismo colectivo a um conjunto de regras atávicas, aceites por costume, e sem uma reflexão necessária crítica desses costumes, a Ética é precisamente essa reflexão crítica, feita de forma individual, e a consequente prática individualizada do fruto maduro dessa reflexão e das conclusões filosóficas concretas que tal meditação corporiza.

Enquanto a Moral dá origem ao moralismo: acéfala e acrítica submissão a chavões generalistas e o 'vigiar e punir' de tudo, de todos, o que não se submete e conforma a tais chavões, a Ética permanece no chão vitalista da senciência individual e individualizada (morada do Espírito), preocupa-se com a congruência individual de uma acção autêntica, sem olhar por cima do ombro para ver se todos estão a fazer o mesmo, e sem querer vigiar ou punir outros comportamentos

Vem isto a propósito destes tempos 'covidianos' que parecem ter despertado o 'polícia dos bons costumes' moralista dentro de muitos. Estamos a viver na Era dos Acusadores, sempre de dedo em riste a policiar o comportamento dos demais, sempre a julgar e a acusar, sempre com a compulsão de polemizar, face aos que não se submetem à opinião dominante, num verdadeiro acto de 'bullying' social.

 A Era dos Acusadores é chão fértil para totalitarismos. Todos os totalitarismos acusam a consciência individual de rebeldia inaceitável, exigem um conformismo colectivo total, pervertem a noção de Liberdade, forçam a submissão total do indivíduo a um todo abstracto massificado (A Nação, a Raça, o Povo, a Classe, a Espécie…), face ao qual todo o pensamento divergente, toda a singularidade, toda a Liberdade devem ser anuladas e sacrificadas.

Todos os totalitarismos, de Direita ou de Esquerda, odeiam a ideia de singularidade, de individualidade, todos, além das ideologias que perfilam, enformam desde a base das suas sociedades um 'fascismo societal' (como diz Boaventura Sousa Santos, na esteira de Michel Foucault) onde todos os cidadãos devem ser polícias uns dos outros, controladores e acusadores uns dos outros, só assim as oligarquias que dominam se sentem seguras.

Nas redes sociais existem alguns que se acham no direito de serem polícias uns dos outros, chovem posts a acusar o povo de ser irresponsável e negligente (sim, porque os governantes, esses são impecáveis…) E temos socialmente, a propósito da pandemia, apelos sub-reptícios dos próprios governos 'democráticos' (ainda democráticos…) a que os cidadãos vigiem e denunciem comportamentos não conformistas da parte dos seus concidadãos. Muito perigoso tudo isto. A democracia pluralista, cívica, um Estado de Direito, que consagre direitos, liberdades e garantias individuais, não é uma 'democracia popular', Portugal não é a R.P. da China, não podemos aceitar um Estado de Vigilância colectiva.

Apesar de a Moral ser 'totalista' e a Ética ser individual, o Ego, e o Super-Ego, moram na esfera moralista, porque nada mais satisfaz o Ego do que a sensação de 'righteousness', a sensação de estar moralmente no topo de uma pirâmide hierárquica a acusar e julgar os outros de irresponsáveis e egoístas… Enfim, a pandemia não nos está a tornar melhores seres humanos, está a chamar ao de cima o pior da humanidade, o instinto gregário de servidão voluntária, de submissão ao Poder hierárquico em troca de uma sensação de ser cuidado por um 'Pater Familiae' colectivo… Em troca de segurança fora com a Liberdade, a sociabilidade e os afectos que nos definem como humanos, e que são penhores de uma verdadeira Unidade entre nós… Por um prato de lentilhas se vende a primogenitura da alma…

E não tem de ser assim. É possível compatibilizar a Liberdade com a saúde e a segurança. O vírus não é uma entidade sobrenatural, é um organismo natural (só se transmite após minutos de contacto próximo a menos de 2 metros, e não por magia por nos termos cruzado com alguém num passeio, ou na estrada, durante segundos…); é preciso Bom Senso, proteger os grupos de alto risco, sim, com medidas específicas voltadas para tais grupos, mas sem medidas draconianas de cosmética pública e controlo social da totalidade da população, como o uso obrigatório de máscara ao ar livre em qualquer circunstância, ou  recolheres obrigatórios vespertinos… (Não tenho nada a opor ao uso de máscara obrigatório dentro de espaços públicos fechados, e outras medidas logisticamente congruentes.)

Termino recomendando a leitura de três livros, "O Tratado da Servidão Voluntária" de Étienne de La Boetie, "A Filosofia da Liberdade' de Rudolf Steiner, e "A Genealogia da Moral" de Nietzsche. Boas Leituras!  

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