A importância da cultura desportiva para a vida

Directo ao assunto: a Educação Física já contou para a média de acesso ao ensino superior, entretanto, julgo que em 2012, deixou de contar e agora voltou à situação anterior. Respeito todas as posições sobre esta matéria que, para mim, não tem nada de complexa. Lendo, estudando e escutando, desde sempre que me posicionei contra a atribuição de níveis ou notas nesta disciplina, infelizmente, ainda, designada por Educação Física. Adiante, certamente, o leitor compreenderá o porquê. Mas, desde logo sublinho que nada justifica a continuada luta por querer manter um estatuto de igualdade a qualquer outra disciplina, aquela que é estruturalmente diferente. Não é pior nem melhor, apenas é diferente e é nessa diferença que ela deve procurar o seu espaço de intervenção. Em síntese, defendo o desporto como um dos bens culturais para a vida, tal como o teatro, o ballet, a música, a dança, aliás, toda a área das Expressões. Neste pressuposto, não fazem sentido avaliações, muito menos fazê-las contar na acessibilidade ao ensino superior, quando o objectivo maior é integrar, desde muito cedo, esse sentido cultural para toda a vida. Entra até no campo do ridículo que se atribuam notas no Ensino Secundário com tamanha relevância e, depois, a esmagadora maioria deixe de praticar seja que actividade for. Atestam-no as taxas de participação que colocam o País na cauda da Europa.

Tenho presente a "Ode ao Desporto" de Pierre de Coubertin: "Ó Desporto, prazer dos Deuses! Essência da vida (...) Ó Desporto, tu és a beleza! És o arquitecto deste edifício que é o corpo, que pode tornar-se abjecto ou sublime, se degrada na vileza das paixões, ou saudavelmente se cultiva no esforço. (...) Ó Desporto, tu és a Justiça! A equidade perfeita, em vão perseguida pelos Homens nas instituições sociais! (...) Ó Desporto, tu és a audácia! Todo o sentido do esforço muscular se resume numa única palavra: ousar. (...) Ó Desporto, tu és a Honra! Os títulos que tu conferes não têm qualquer valor se adquiridos por meios diferentes da lealdade absoluta. (...) Ó Desporto, tu és a alegria! Ao teu chamamento o corpo alegra-se, os olhos sorriem e o sangue circula. (...) Ó Desporto, tu és a fecundidade! Por vias indirectas e nobres, encaminhas ao aperfeiçoamento. (...) Ó Desporto, tu és o progresso! Para bem te servir é necessário que o Homem se aperfeiçoe no corpo e na alma. (...) Ó Desporto, tu és a paz! Estabeleces relações felizes entre os Povos, aproximando-os no culto da força dominada. (...)". Tudo isto, caros leitores, não se consegue com notas de avaliação, mas com CULTURA.

Não vou escrever um novo texto sobre o que penso relativamente à matéria que aqui me trouxe. Vou, apenas, socorrer-me de dois grandes Amigos: o Filósofo, Professsor Catedrático, Doutor Manuel Sérgio e do Professor Catedrático Doutor Gustavo Pires. O que aqui vou deixar escrevi, em 2012 e 2013, reforçando o que antes tinha assumido no livro que, em 2004, escrevi por ocasião do "Ano Europeu da Educação pelo Desporto".
Enalteceu Manuel Sérgio:

(…) Por mim sou em crer que se a Educação Física, se se deixa aferrolhar na torre de marfim onde virginalmente querem escondê-la, roubando-lhe o acto fecundante do contacto com as ciências do Homem, não excrescerá a mediania (…). - A Prática e a Educação Física, 1985, pág. 11. E o problema é exactamente esse, quando assisto a pessoas que continuam a aferrolhar esta disciplina, como se de uma vaca sagrada tratasse, quando melhor seria deixá-la fecundar-se pelas ciências do Homem. Lembro-me de Manuel Sérgio, em uma das longas e amigas conversas que manteve comigo, em minha casa, ter dito com aquela sabedoria expressa em poucas palavras: "tirem a bola à Educação Física e digam-me lá o que resta!". Nem mais, disse-lhe. E a conversa continuou dissecando um seu artigo de opinião que sintetiza as correntes filosóficas, sociais e o pensamento pedagógico ao longo dos tempos: 

"(...) nem científica nem pedagogicamente existe qualquer educação de físicos (...) a expressão Educação Física está incrustada numa ambiência social onde o estudo desta matéria não é conhecido (...) e, portanto, a Educação Física deve morrer o mais rapidamente possível para surgir em seu lugar uma nova área científica que mereça dos homens de ciência credibilidade, respeito e admiração" (Artigo de opinião publicado no DESPORTO Madeira, 27.06.03). 

E no livro "Da Educação Física à Motricidade Humana" (2002), no qual estive envolvido, o citado autor refere que é no quadro da Ciência da Motricidade Humana que falo de “uma nova Renascença, de uma época de construção de novas ciências, que procura encontrar a teoria da prática dos professores de Educação Física (…) "há que compreender como Heidegger, que existir humanamente é ser tempo. De facto, tudo é tempo e a Educação Física já teve o seu". Ora bem, mas não é apenas Manuel Sérgio que a esta mudança se refere. Entre tantos de uma extensa bibliografia, um outro, de quem também sou amigo pessoal, o Professor Gustavo Pires, catedrático na Faculdade de Motricidade Humana, salienta no livro Desporto e Política – Paradoxos e Realidades, pág. 352 e 353:

"(…) O sistema de valores, os símbolos, a estética, o espaço e a estrutura do tempo são portadores de novas ideias e pensamentos que devem originar outras soluções organizacionais quando se trata de organizar actividades lúdicas, culturais, recreativas e formativas, em ambiente escolar. 

(…) Defender a Educação Física não é, por isso, insistir nos modelos e nas soluções do passado. Defender a Educação Física é sermos capazes de encontrar soluções de acordo com as realidades do nosso tempo. Numa dinâmica de futuro. E o futuro é o ensino do desporto". 

Ora, aqui convergem dois pressupostos: a mudança da instituição escola e, por extensão, a mudança do paradigma que enforma a Educação Física. Como defendo que ela não se deve "aferrolhar na torre de marfim", conhecendo todo o processo histórico e a evolução tecnológica, entendo que a escola portuguesa é hoje uma instituição desadequada da realidade e a Educação Física não faz, por conseguinte, qualquer sentido. Deve ser substituída pela Educação Desportiva. É preciso que assumamos que a Educação Física, hoje, não é nada. Há inquéritos mundiais que testemunham a sua crescente descredibilização e aceitação. E quando escrevo a palavra hoje refiro-me desde os anos 70 para cá. 

Fui aluno, em 1969, do Professor Nelson Mendes, autor do livro "A Humanização do Movimento" (1969). Na parte que consagra à Antropologia – ponto de partida, salienta: "É nossa opinião que a expressão Educação Física é actualmente uma expressão limitadora, estática e não válida. Não está mais em causa o físico ou soma como realidade existente em si própria. O físico não pode, actualmente, existir como objectivo específico de qualquer acção de âmbito educativo" (…) Esta expressão enquanto persistir como expressão actual, limitará forçosamente o seu verdadeiro significado e, portanto, qualquer acção nesse sentido". "(…) Há que situarmo-nos na corrente filosófica actual quanto à natureza do Homem e daí partir". 

Passaram-se 51 anos! Não resisto, porém, de deixar mais esta achega: "(...) A dita Educação Física, porque é física não pode ser raiz do conhecimento, dado que isola o físico do intelectual e moral e, assim, não é uma categoria gnosiológica, nem uma categoria sociológica – é um conglomerado de técnicas, sem qualquer tipo de fundamento válido. Não basta uma prática, precisa é de uma compreensão da prática, ou seja, a unidade prática-teoria: teoria essa que pretende interpretar e projectar a prática". Mais adiante, continua Manuel Sérgio: "(…) Educação Física: libertação ou alienação? Será alienação enquanto for física, pois que esta palavra apresenta uma clara significação ideológica. Na realidade, a Educação Física pode levar a uma definição de homem conformista, imobilizado no tempo (…) sem um projecto global de humanidade" - Algumas Teses Sobre o Desporto, pág. 65 e 66.

Apesar de assim ser, lamento que desde ministros a secretários, continuem a querer enquadrar esta disciplina fundamental da formação humana no mesmo patamar de todas as outras. Pergunto, então, que justificação existe para que conte para a acessibilidade ao Ensino Superior? E o teatro, a dança, o canto, o ballet, as artes de uma maneira geral? Porquê a Educação Física? 

Hoje, li, na revista A Página da Educação que me chegou pelo correio, um intemporal artigo do Professor Manuel Sérgio. Deixo-vos com esta frase: "As pátrias fizeram-se com cientistas,  filósofos, mas também com poetas e heróis. O desporto, nas suas horas mais significativas, também".
Ilustração: Google Imagens.
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