O saudosismo do maná

A recordação saudosista do maná é um recurso reincidente. Moisés viu-se e desejou-se quando os acontecimentos lhe violentavam a autoridade e face a isso o povo recorria ao bordão do saudosismo do maná. Assim, foi antes, assim é hoje.

O deserto de ideias, as constantes investidas à história, como se aí estivesse o melhor do mundo e a salvação, faz parte de muitos que não sabem viver hoje com o olhar no amanhã, mas são eternos moradores do ontem, do passado. Daí as saudades do maná e das cebolas do Egito, mesmo que o sofrimento, as ervas amargas e o pão ázimo fossem o alimento do quotidiano. Não gosto desta vil tristeza, que serve também para os nossos dias. Eis o mesmo retrato e a única forma que se impõe em todos os tempos para fazer o mundo e a existência. Devíamos recusar estas teimosas circunstâncias que nos desgraçam sem graça nenhuma.

Por causa destas reincidentes circunstâncias, Jesus insiste num pão que permanece, poucos O perceberam e ainda percebem menos o seu real sentido e significado. É mais fácil dar respostas circunstanciais, pois rende votos, suscita a fama escaldante e enche os egos de importâncias fúteis. Não duvido que nesse circunstancial esteja o maior deserto deste mundo e fazer essa travessia leva tempo. Tanto que nos devia incomodar sobremaneira as teimosas apostas no efémero contra o permanente, o eterno!

Ao contrário do maná perecível foi apresentado «o alimento eterno», «descido do céu», aquele que dura para sempre e que não se submete ao rigor dos trâmites legais dos prazos. O entendimento desta verdade custa entrar, ainda não entrou, porque as opções continuam a ser pelo efémero, pelo perecível e pelo limite temporal dos interesses pessoais e do grupo.

Esta lógica não tem futuro, vai queimando a vida em todos os sentidos. Obviamente, que corrói as estruturas sociais, psicológicas, políticas e religiosas. As opções que comandam a existências de todos, queiram ou não, estão todas dependentes desta frágil realidade, que nos envenena o futuro e deprime o presente.

Claro, que todos são responsáveis. Mas como sempre, haverá uns mais responsáveis que outros. Ou servirá dizer que bastam poucos, mesmo muito poucos, para condicionar a vida de todos neste sentido do saudosismo do maná. Assim geram-se despudoradamente milhares de milhões de vítimas, só porque o interesse não está virado para o serviço do bem estar para  todos, mas apenas para a meia dúzia que chega primeiro e está com mais sorte que os outros. A desgraça da fome que grassa neste nosso mundo é o escândalo dos escândalos onde se reflete o pior que a humanidade tem. Entre nós os esfomeados não são só de pão…

O efémero não é imortal. Nem muito menos será gerador universal do bem estar e felicidade para todos. Urge fazer tudo em função do bem maior que perdure no tempo e no espaço, para chegar a muitos. Urge guiar-se pela ética do bem que não deixa «ninguém para trás», mas antes se inquieta com todos e cada um. O saudosismo do maná, não serve. O «pão que permanece» exige verdade nas palavras e coerência na ação em função do bem eterno e o mais universal possível.
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