Urge contar a verdadeira História

Vivemos um tempo de desconfiança e de alguma desesperança. Existe, tenho para mim, uma aparente paz social, talvez, melhor dizendo, onde tudo parece funcionar, apesar dos gritos políticos audíveis por aqui e por ali. O povo anda desconfiado da azáfama que se adivinha por becos e travessas, de promessas que o vento leva, uns que não querem deixar os peitos que alimentaram tantos interesses e bocas, outros que, dizem, para lá se dirigem. Mas não é esse rodopio que aqui me traz. É a História que me fascina.


A verdadeira, aquela que está por se fazer. Não a História dos 600 anos, investigada por quem, de forma séria, a essa área do conhecimento se dedica. Não a História dos 600 anos de alegadas dívidas da Monarquia e da República que, sublinham, constituiu um roubo à Madeira, tratando este espaço por "colónia" e ilha adjacente. 

Interessa-me muito pouco esses estudos, alguns de oportunidade política convergente com a ideia do "inimigo", de todas as cores, que tem habitado o Terreiro do Paço. Estou mais inclinado em conhecer a História recente, aquela que eu vivi, a História oculta que resulta de um gigantesco labirinto, construído, paulatinamente, por gente de smoking vestido, bem falante em cima dos múltiplos palcos. A História onde todos se conhecem e que vivem de acordo com um código oculto, onde todos sabem e dominam o comportamento esperado. A História dos bastidores concursais, ao jeito de pataca a mim, pataca a ti, dividindo o queijo como querem e entendem. A História das obras que, em percentagem, alimentaram os fundos partidários, através de quem as adjudicou. A História da formação de grupos de interesse pressionante, dos que estando, não estão. A História dos "bons telefones" que cruzam gabinetes distintos, decidem e tentam colocar em sentido desde jornalistas livres a cidadãos de coluna erecta. A História de como passar de falido a rico ou riquíssimo em meia-dúzia de anos, sem rasgos de criatividade e risco. A História de como manter 30% de pobres. A História das razões substantivas (adivinho-as) de 65% da população apenas possuir o 3º ciclo do ensino básico. A História dos actos corruptos de natureza tentacular. A História das facturas escondidas e não condenadas. A História sobre os porquês das obras não prioritárias. A História das perseguições subtis, atirando para a margem quem pie de forma "inconveniente". A História dos bastidores da Justiça. A História da compra das consciências e do medo que coarcta o pensamento livre e fere a democracia. A História das cedências e das contrapartidas. A História da Igreja Católica submissa e que jurou fidelidade aos senhores tidos por benfeitores. A História das atitudes monopolistas que agravam a vida da comunidade insulana. A História, enfim, aquela História que leve a perceber a estrutura que conduziu a doze governos de maioria absolutíssima.

Deixo aqui, ao correr do pensamento, alguns itens de um extenso índice para uma obra de investigação que conduzirá, estou certo, a várias edições e tradução para outras línguas. Uma História narrada, sei lá, em romance, que ligue pessoas a factos e da qual resulte os contornos mais evidentes da política alapada. Devorarei esse livro sem necessitar de uma insónia! Se essa obra já estivesse disponível e fosse eu, ainda, docente, com responsabilidades de direcção de um estabelecimento de aprendizagem, torná-la-ia de leitura obrigatória, enquanto instrumento de capacitação de uma cidadania activa, livre, esclarecedora, actuante e formativa de uma nova e saudável vida, vivência e convivência democráticas. O problema é que essa obra jamais será dada à estampa, porque as pontas soltas seriam muitas e, talvez, entupissem os Tribunais! Penso que devo esperar sentado.  
Ilustração: Google Imagens.
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