A arte de dar voz

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Muito se fala da fraca participação cívica da maioria dos madeirenses e na necessidade de a reverter. Principalmente em tempos de mudanças políticas iminentes e questões sociais prementes. Podemos ter o melhor jogador do mundo ou ser o melhor destino insular, mas não somos propriamente campeões em civismo, participação ativa na vida da comunidade, espírito crítico ou autocrítico. Os superlativos fazem belas parangonas mas a realidade tem-se aproximado bem mais da imaturidade democrática e da relutância em se envolver na coisa pública.

Somos (ainda) assim e somos muitos, e por isso mais do que explicar ou perceber este nosso defeito - e existem razões e explicações a conhecer e divulgar – importa mudá-lo. As amarras que nos impedem de ser cidadãos participativos e críticos têm de enfraquecer e desaparecer. Sente-se essa necessidade no ar. Este blogue, assim como tantos outros esforços, iniciativas e projetos são expressão disso mesmo. Dessa vontade de dar voz.~

E é precisamente duma metodologia que tem essa vontade por objetivo último que queria aqui falar. Conheci-a na infindável busca por ações de formação interessantes, que na minha profissão é lugar-comum, e reconheci-lhe um grande potencial para a formação de cidadãos envolvidos e participativos, que poderá ser útil a organizações e associações de diversas naturezas, que tenham a educação da população para a cidadania entre os seus objetivos.

Falo da metodologia conhecida como Teatro do Oprimido, que reúne diferentes técnicas teatrais – o teatro Jornal, o teatro Imagem, o teatro Invisível, o teatro Fórum, entre outras- com o objetivo comum de envolver os espetadores em problemáticas sociais da sua comunidade. O seu criador, o dramaturgo e teórico de teatro brasileiro, Augusto Boal, nascido em 1931 e falecido em 2009, viveu os tempos de mordaça da ditadura militar brasileira e reagiu contra a opressão e a consequente perda de liberdade de expressão, usando a educação e o teatro para devolver as vozes silenciadas pela ditadura.

Inspirado na Pedagogia do Oprimido do pedagogo brasileiro Paulo Freire e nas vivências e experiências profissionais de Augusto Boal na área da educação e da alfabetização em quase toda a América Latina, o Teatro do Oprimido, e mais especificamente a técnica do Teatro Fórum, transforma o espetador em protagonista da ação dramática. Após uma curta representação em que se aborda uma determinada problemática, o espetador é convidado a refletir e a se posicionar em relação a essa questão. Segue-se uma segunda representação, mas nesta o espetador é incitado a congelar a ação a decorrer em palco, a substituir atores e as suas falas, alterando desta forma os acontecimentos, por forma a encontrar uma saída ou solução para a questão abordada na peça.

O teatro é assim entendido como facilitador da mudança de mentalidades, no sentido duma participação ativa nos problemas comuns à comunidade, e como catalisador da ação futura, já que ao serem debatidas e ensaiadas em palco diferentes soluções para um problema se abrem também caminhos passíveis de serem aplicados na vida real das comunidades e dos indivíduos.

E porque uma cidadania participativa e plena não se constrói com silêncios e alheamentos, a companhia madeirense Teatro Metaphora tem divulgado esta técnica de teatro na Madeira, no âmbito do projeto You are the engine of change, do programa Erasmus+, que visa precisamente dotar as organizações e associações juvenis de ferramentas e metodologias para que possam promover uma maior participação e envolvimento dos jovens na resolução dos problemas das suas comunidades, e que conta já com grupos de formandos em diversos países da África e da Europa, incluindo na Madeira. Apresentado ao público na Ponta do Sol, no passado mês de Novembro, o projeto volta à cena com uma questão de particular interesse para os jovens, mas que a todos diz respeito, nos dias 25 e 26 de Janeiro, na Casa da Cultura de  Câmara de Lobos. Fica a sugestão e para os interessados as hiperligações que se seguem.

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