Pandemia e paranóia escolar

Há qualquer coisa de patético entre a pandemia que nos cerca e algumas preocupações que tenho vindo a ler sobre o processo de avaliação dos alunos. Quando nos confrontamos com uma situação que pode colocar um indivíduo entre a vida e a morte, há pessoas, em pleno período de emergência nacional, a questionar, imagine-se, o "drama" da avaliação escolar. Não encontro uma racional explicação para isto, quando as autoridades de saúde enaltecem que o pico da pandemia poderá ser atingido no início de Maio, o que pode significar que, muito para lá desse momento, todos os cuidados na contenção serão poucos. A avaliar pelo que dizem as autoridades de saúde, pressuponho, especulação minha, que não haverá condições para um regresso à normalidade até ao final do ano escolar. A não ser que o prolonguem ou o "Covid-19" seja, por "milagre", completamente eliminado. Se assim acontecer, este texto deixa de ter sentido. 


Neste momento, face ao quadro que temos pela frente, a pergunta que se coloca é se, nesta complexa situação  de saúde pública que todos estamos a viver, onde existem claras prioridades, fará algum sentido algumas almas estarem preocupadas com os exames nacionais do 4º ano, do 9º, do 11º e 12º, bem como as designadas "provas de aferição"? Os de 4º, 9º e 11º anos são, do meu ponto de vista, absolutamente dispensáveis. Se outras fossem as características do sistema educativo, obviamente que nem disto se falaria. O verdadeiro conhecimento portador de futuro tem outros contornos que não se compaginam com o actual sentido organizacional, curricular, programático e pedagógico. Mas, situemo-nos no sistema em vigor.

Ora bem, tenhamos presente que, neste ano escolar, todos os alunos foram avaliados em, pelo menos, dois dos três períodos. No caso das escolas com avaliação semestral, há um registo e, em ambas as opções, uma exaustiva avaliação continua que teve início em Setembro de 2019. Com uma ressalva: na dúvida, face às circunstâncias, o aluno não deve ser prejudicado. Portanto, não vejo onde reside o problema. Quanto ao 12º ano e respectiva acessibilidade ao ensino superior, também não creio que seja um incontornável drama. Os alunos de todo o país estão em igualdade. Mesmo sem exames (imaginemos que a situação se prolonga e atravessa os meses de Maio, Junho ou mesmo Julho), apenas espero que exista o bom senso expresso em uma proposta que assegure uma acessibilidade que corresponda às avaliações anteriores e, sobretudo, respeite os interesses e vocações dos candidatos. O que para mim é completamente despropositado é que este assunto constitua um problema, repito, um drama, quando estamos confrontados com uma impiedosa e devastadora epidemia. O drama, esse, está no surto "Covid-19" e não nos exames nacionais.

"Mais de 850 milhões de crianças e jovens em todo o mundo, quase metade da população escolar mundial, estão sem aulas devido às medidas de contenção para travar a propagação do novo coronavírus, anunciou a UNESCO."

Mas há quem assim não pense e considere. Com os alunos retidos em casa, a paranóia da preparação para os exames (e não só) anda por aí. Li, no DN, um trabalho interessante subordinado ao título: "Escolas fechadas. Pais a trabalhar em casa desesperam com exagero de TPC". O texto começa assim: "Gravar um vídeo diário a praticar piano, flauta ou guitarra; resmas de exercícios que ultrapassam largamente os 50 minutos de uma aula; trabalhos que os alunos estranham, como um poema sobre conteúdos de Físico-Química; pais que recebem vários vídeos diários da professora do pré-escolar com atividades físicas e desafios, e depois devem devolver vídeos ou fotos para mostrar como as crianças praticaram... Passaram poucos dias do encerramento das escolas decretado pelo governo para combater o novo coronavírus, mas já há pais a dar em loucos. E os desabafos, em tom de desespero, nas redes sociais são prova disso - estão eles próprios a adaptar-se ao teletrabalho e sem a disponibilidade necessária para acompanhar os filhos 24 horas por dia e, ao mesmo tempo, fazerem o papel de professores. (...) "Para nós já é o quinto dia e começa a ficar difícil. Os trabalhos de casa, a falta de braços e de paciência. Acho que se entrou numa onda de loucura porque se está a pensar que os pais estão de férias e têm todo o tempo do mundo para acompanhar as crianças", diz Vítor Jorge, jornalista de publicações especializadas, que está fechado em casa desde sexta-feira com os dois filhos, um rapaz de 9 anos e uma menina de 4. (...) "Passou-se do 8 não para 80, mas para 800. Hoje a professora deve ter feito scanner do livro e mandou fichas até ao final do ano, sem timings. Temos de ver que os tempos não são fáceis e que os pais que estão em teletrabalho não estão no sofá a ver séries e filmes." (...) Crianças na idade das do Vítor exigem acompanhamento constante, ainda mais quando estão fechadas em casa, estão sempre a interromper, pedem ajuda para os exercícios. Depois há a questão logística: se antes da quarentena os pais deixavam as crianças na escola de manhã e iam buscá-las ao fim do dia, agora têm de lhes fazer o almoço, garantir que comem, dar lanches, sempre a interromper o trabalho - a adaptação é difícil." 

"(...) Essa é a vertente da nova realidade escolar trazida pelo coronavírus que Leonor Santos enfatiza. "Não podem partir do princípio de que toda a gente tem computador, nem todos têm, nem têm de ter." Na sua casa, por exemplo, há apenas um - para Leonor trabalhar em casa e para os dois filhos, António (16 anos) e Pedro (11). Nesta terça-feira, o mais velho teve de fazer o TPC de Português antes de a mãe se sentar e iniciar o seu dia de teletrabalho. Da escola do Pedro pediram-lhe que se inscrevesse na Escola Virtual e no Google Classroom - Leonor ainda não tinha tido tempo para isso, mas o rapaz já sabia que teria de entregar trabalhos nesta quarta-feira. A questão é: como vai ser quando todos precisarem de usar o computador ao mesmo tempo?

"(...) Desde que as escolas fecharam na segunda-feira que Alice, aluna do 9.º ano, recebe na plataforma digital Inovar os trabalhos que devem ser realizados todos os dias, como se estivesse na escola. Está a cumprir-se o horário semanal. Ela concorda que os alunos tenham de continuar a aprender, mas discorda da "quantidade exagerada de exercícios, alguns completamente despropositados", que lhe estão a ser pedidos pelos docentes. "Seria bom se os professores nos mandassem ler umas páginas, uma pequena parte da matéria, e mandassem perguntas de consolidação. Mas o que estão a fazer é a pedir trabalhos como se tivéssemos todo o tempo disponível para a escola. Mandam mais trabalhos do que iríamos efetivamente realizar na aula. Quarentena não são férias, mas temos de ter tempo para fazer outras coisas, tal como tínhamos quando estávamos em aulas", diz a jovem.

Estamos, portanto, a viver um tempo de exageros. Uns preocupados com os exames, outros preocupados em despachar matéria e, no meio disto, a própria avaliação de desempenho dos docentes. Ora, o tempo passado em casa, obviamente, deverá ser aproveitado para mais e melhor conhecimento. Esse é ponto assente, porque este não é um tempo de férias ou de pausa escolar. Mesmo que fosse! Deverá ser um tempo para ler, ler muito, tempo de aprender outros importantes domínios, tempo para escrever e ir ao encontro do que é estruturalmente importante. Se alguém julga que cumprir os "programas", mesmo que à distância, terá resultados no futuro, desengane-se. Ficará nos relatórios a apresentar, mais tarde despachados para o arquivo morto das escolas. Apenas isso. Haja bom senso. Lembrem-se do Professor José Pacheco que, olhando para uma extensa plateia de professores que o escutava, a páginas tantas, perguntou: todos os que aqui estão aprenderam a fazer a "raiz quadrada". Levante o braço quem ainda se lembra de a saber fazer! Levantaram uns poucos que leccionavam Matemática. Partamos, então, para o essencial.
Ilustração: Google Imagens.
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