Aprendamos com o populismo orçamental da Itália

A Itália vai insistir com o seu orçamento rejeitado pela Comissão Europeia, aparentemente nem se importam que a corda parta. Se tudo isto terminar com mais uma saída da UE, o projecto Europeu não deve cair, deve prosseguir, sobretudo com aqueles que respeitam o projecto COMUM e não com aqueles que querem ser sempre excepção. Eu acho que sofremos muito. Achamos injusto e perdemos muito na vida mas, depois de padecer ver que reconhecem que passamos por um erro que deu razoável resultado (porque ainda não recuperaram as famílias), sentimo-nos mais europeus. É a excepção que destrói a credibilidade e não as saídas. É olhar para a arrogância do Reino Unido no que está a dar. Talvez seja hora de se fazer entender que os espertalhões não têm lugar na União Europeia.

Portugal que conserve o respeito que ganhou por entre os 4 do sul, o quebrar do estigma do descrédito deve ser salvaguardado a todo custo.

A Itália, a única coisa que está a fazer é isolar-se com o mesmo método de Trump, a de ser um caso à parte. No início parece muito bonito, no fim é desastroso, é só ler a história universal. Para além disso, a Itália vai perder força para posicionar os seus nacionais em cargos na Europa. Que péssimo serviço faz este país a Mário Draghi que até foi uma voz contrastante aos arrufos das políticas pretendidas pela Alemanha. Draghi soube aligeirar a austeridade com políticas inteligentes.

Na verdade, Bruxelas chumbou um orçamento dentro das regras europeias, ou seja, abaixo dos 3%. O problema está no populismo usado na campanha eleitoral italiana que, agora consumado pelo poder, inverte a tendência de descida do défice, subindo-o para 2,4% e afastando a Itália do pagamento real da dívida que é de 131% do PIB, a segunda maior da zona Euro com influência clara sobre as contas da União.

Para além disso, as políticas financeiras e económicas pretendidas pela Itália entram em choque com a linha seguida por outros países. Se a Itália for excepção, toda a credibilidade da UE seria posta em causa. Dessas promessas eleitorais constam a eliminação da fase de implementação dos aumentos das idades de reforma, a descida generalizada de impostos, a aplicação de um rendimento mínimo para desempregados, entre outros. Esta situação traz também clivagens no próprio Governo italiano (de geringonça) já que o ministro das finanças apontava para os 1,6% para o défice mas as políticas populistas subiram-no para 2,4%, situação que pretendem manter para 2020 e 2021. O que assusta Bruxelas é o facto de, para além do relatado, o défice é 3 vezes maior do que o do governo anterior. 

Paralelo a isto, o estado da banca italiana é preocupante pelo crédito mal-parado fruto das sucessivas crises e pelo pais ter sido o que menos soube aproveitar as medidas de juros baixos do BCE. Indicia alguma incapacidade de aderir e gera suspeição sobre o que por ali anda. Como sabemos, as medidas de juros baixos para as dívidas soberanas vai acabar e, o trabalho de casa de converter dívida "cara" em "barata" não está feita e, o populismo quer que a Itália gere mais dívida e diminua a arrecadação de impostos. No mínimo, isto é injusto para gregos e portugueses ouvirem.

Portugal acaba por ser a pedra no sapato. A Itália quer ter a "sua" política fiscal para arrecadar mais impostos através do consumo, ora ela só será eficaz se isso não se traduzir em mais importações. Será que pensam mesmo em consumo próprio? Quando Portugal teve que "manobrar" foi ambíguo e nas prevaricações que fez a Bruxelas colmatou com o compromisso das cativações e do aperto das contas públicas. Garantias que não se vê no Governo italiano.

Os italianos sabiam que iam ver o seu orçamento chumbado, o que tentam é, por via de um "exagero" orçamental, aliviar a austeridade que devem implementar. Estão dispostos a negociar mas, quando avançamos para o fim do prazo das 3 semanas para a revisão da proposta de orçamento, parece que querem esticar a corda um pouco mais. Esta ousadia de incumprimento das regras orçamentais, a continuar, pode levar a Comissão Europeia a aplicar sanções contra a Itália, facto completamente novo na realidade da União Europeia que, nem tanto pela vontade de ambas as partes, pode dar lugar a mais uma saída, fruto de orgulhos e populismos de campanha eleitoral.

Cada vez mais, o eleitor deve estar informado porque ou se mente ou se promete a mais, deve-se votar na realidade. Creio que os italianos não devem estar muito satisfeitos por ver a Itália a dar sinais de aproximação à Rússia (táctica já ensaiada por outros), quanto as sanções da U.E. a este país. elas existem devido à situação de anexação da Crimeia. Brincamos com coisas ainda mais sérias.

A dimensão da economia italiana é mais um handicap para a negociação no exagero populista do que um trunfo porque interfere na vida da União. Tanto que também o FMI afirma que a solução italiana para o orçamento vai deixar o país mais vulnerável e provocar uma recessão, depois virão dúvidas e suspeições a fazer disparar os juros ao país justo no fim das políticas "quantitative easing e taxas de juro baixas" do BCE, do italiano Mário Draghi.

A situação é tão preocupante que nos bastidores da União Europeia o problema nº1 deixou de ser o Brexit.


Para terminar uma anedota:

Um navio de cruzeiros estava a afundar e o comandante teve de dar a ordem de evacuação a cada uma das 4 nacionalidades a bordo: ingleses, franceses, alemães e italianos.

Sempre os primeiros a abandonar tudo, a comunicação começa pelos ingleses:
"Temos uma excelente oportunidade para pôr em prática a nossa capacidade física em benefício da nossa saúde, não se preocupem, o navio está a afundar mas todos sabemos das nossas capacidades atléticas para ultrapassar tudo e todos. Isto é só mais um desporto."

Chega a vez dos franceses:
"Como manda a etiqueta, venho vos comunicar que o navio está a afundar e que é extremamente elegante aproveitar a oportunidade para proceder à evacuação da nossa luxuosa embarcação. No desembarque será entregue um colar XL insuflável que serve para boiar."

Seguiram-se os alemães:
"Toda a situação de naufrágio está sob controle, vamos proceder ao cumprimento do plano de evacuação estudado e aprovado pelas regras internacionais. A tripulação estará a apoiar as outras nacionalidades."

Chegada a vez dos italianos, o comandante conhecendo as características de cada povo teve de convencê-los a abandonar o navio porque a festa estava uma maravilha:
"É absolutamente PROIBIDO abandonar o navio durante o naufrágio, AGUARDEM por mais indicações." Não tinha todavia acabado a comunicação e todos os italianos tinham saltado borda fora. Foi a nacionalidade mais rápida no processo.
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